O
Império Romano do Oriente, ou império
bizantino, manteve-se poderoso ao longo
de um milênio, depois da queda de
Roma. Síntese de componentes latinos,
gregos, orientais e cristãos, a
civilização bizantina constituiu,
durante toda a Idade Média européia,
o principal baluarte da cristandade contra
a expansão muçulmana, e
preservou para a cultura universal grande
parte dos conhecimentos do mundo antigo,
sobretudo o direito romano, fonte das
normas jurídicas contemporâneas,
e a literatura grega.
O império bizantino teve origem
no ano 330, quando o imperador Constantino
fundou Constantinopla, na região
da colônia grega de Bizâncio
(referente a Bizas, fundador lendário
da cidade). A intenção de
Constantino era criar uma segunda capital
romana para defender as fronteiras orientais
do império dos ataques de persas,
eslavos e demais povos limítrofes.
A posição estratégica
-- entre a Europa e a Ásia e na
rota dos estreitos que permitiam o comércio
entre o mar Negro e o Mediterrâneo
-- converteu Constantinopla, a partir
do século V, no único centro
político e administrativo do império.
Originalmente, portanto, já se
juntavam a parte oriental do antigo império
romano e algumas possessões africanas,
sobretudo o Egito. Em termos oficiais,
o império constituiu-se após
a morte de Teodósio, ocorrida no
ano 395. O mundo romano foi então
dividido entre seus filhos Arcádio
e Honório. O primeiro recebeu a
região oriental, que compreendia
os territórios situados entre a
fronteira natural do Danúbio e
o Egito. A leste, suas possessões
se limitavam com a Arábia e o império
persa; a oeste, o território bizantino
fazia fronteira com a Dalmácia,
na Europa, e com a Cirenaica, na África.
A subida de Arcádio ao poder, em
395, coincidiu com uma série de
problemas no império, relacionados
com a influência dos germanos na
administração e no exército.
Embora Arcádio reinasse sobre a
pars orientalis, o império mantinha
a unidade formal sob a hegemonia política
de Roma.
O sucessor de Arcádio foi Teodósio
II (408-450), que em 425 criou a Escola
Superior de Constantinopla, centro dedicado
ao estudo de diversas matérias
como a gramática e a retórica
gregas e latinas, a filosofia e o direito.
Também realizou uma compilação
de leis conhecida como Codex Theodosianus.
Teodósio II construiu as muralhas
de Constantinopla, com o que a capital
adquiriu grande capacidade defensiva.
Depois de sua morte, assumiu o poder Marciano
(450-457), que enfrentou numerosos problemas
religiosos. No Concílio de Calcedônia,
em 451, condenou-se a heresia monofisita,
que defendia ter Cristo uma única
natureza, e impôs-se o pensamento
religioso ortodoxo, que teve o apoio do
imperador Leão I, sagrado em 457,
derrotado pelos vândalos no norte
da África e assassinado em 474.
No mesmo ano sucedeu-lhe Leão II,
logo substituído por Zenão
(474-491), que desde 476, depois da extinção
do Império Romano do Ocidente,
ficou como único imperador. Zenão
teve que enfrentar dois importantes problemas:
as querelas religiosas e as rivalidades
entre a corte e o exército. Depois
de desbaratar uma intriga palaciana que
pretendia derrubá-lo -- por um
golpe de estado, Basilisco chegou a ocupar
o trono entre 475 e 476 -- em vista dos
problemas religiosos foi obrigado a publicar
um edito de união para evitar as
cisões verificadas dentro do império,
especialmente na Síria e no Egito.
Anastácio I (491-518), estadista
enérgico e inteligente, foi o primeiro
imperador que viu assomar o perigo dos
árabes, enquanto lutava contra
os búlgaros e os citas. Em 506
foi obrigado a firmar um tratado de paz
com a Pérsia para recuperar as
cidades perdidas durante o conflito que
se desencadeara entre os dois estados.
A política religiosa de Anastácio
caracterizou-se pelo apoio aos monofisitas
e, no aspecto fiscal, suas reformas produziram
um crescimento do tesouro imperial.
Após o reinado de Justino I (518-527),
homem incapacitado para o governo, subiu
ao poder em 527 Justiniano I, um dos maiores
imperadores da história bizantina.
Justiniano, que havia adquirido experiência
política durante o reinado de seu
predecessor, tentou recuperar para Constantinopla
a antiga grandeza da Roma imperial. Ajudado
por seus generais Belisário e Narses,
conquistou dos vândalos o norte
da África, dos ostrogodos a península
italiana e dos visigodos parte da Espanha.
Também combateu a Pérsia
em várias ocasiões, com
diferentes resultados.
Durante a época de Justiniano realizou-se
a maior compilação do direito
romano, conhecida como Corpus iuris civilis,
obra em que se destacou o jurista Triboniano.
O texto constava de quatro partes; Codex
Justinianus, Digesto ou Pandectas, Institutiones
e Novelas.
Justiniano morreu em 565, depois de haver
conseguido uma efêmera ampliação
territorial do império e de promover
uma renovação jurídica,
mas tendo submetido os cofres do estado
a um enorme esforço, de que custaria
a se recuperar. No aspecto religioso,
o imperador obrigou todos os pagãos
a batizarem-se e buscou uma política
de unificação entre católicos
e monofisitas.
Depois de um período em que diversos
imperadores enfrentaram a Pérsia
e os bárbaros nos Balcãs,
subiu ao trono Heráclio I (610-641),
que instituiu o grego como língua
oficial. Apesar da vitória contra
os persas, o império bizantino
não pôde evitar a progressiva
debilitação de seu poderio
ante o avanço dos eslavos, no ocidente,
e dos árabes, no oriente. Heráclio
dividiu o império em distritos
militares guarnecidos por soldados estabelecidos
como colonos.
A partir de 641, pode-se falar de um império
helenizado e orientalizado. Os sucessores
de Heráclio, os heráclidas,
perderam a Síria, a Armênia,
a Mesopotâmia, o Egito e o norte
da África diante da incontrolável
força do Islã, enquanto
a Itália caía nas mãos
dos lombardos e os búlgaros e eslavos
penetravam na península balcânica.
Os esforços para deter os árabes
foram recompensados com a vitória,
em 718, diante das muralhas de Constantinopla.
A dinastia isauriana subiu ao poder em
717 com Leão III, artífice
da vitória contra os árabes.
As desavenças religiosas conhecidas
pelo nome de lutas iconoclastas marcaram
esse período. A difusão
das superstições e o culto
às imagens ameaçaram a estabilidade
religiosa do império, mas Leão
III conseguiu, mediante a publicação
de um edito, proibir a idolatria. O papa
Gregório III excomungou os iconoclastas,
o que motivou a ruptura do imperador com
Roma em 731. Os sucessores de Leão
III deram continuidade à política
religiosa de perseguição
aos iconólatras (adoradores de
imagens) até que, em 787, a imperatriz
Irene convocou um concílio em Nicéia
para restaurar esse culto.
A deposição de Irene por
Nicéforo I (802-811) inaugurou
um período de insegurança
e desordem durante o qual o império
bizantino estabeleceu contatos com Carlos
Magno, na intenção de restaurar
a unidade do Império Romano. A
dinastia macedônica, fundada por
Basílio I (867-886), conseguiu
recuperar o poderio de Constantinopla
e elevou o nível econômico
e cultural do império. Os titulares
dessa dinastia, de origem armênio-eslava,
foram grandes legisladores e administradores.
Deve-se a eles a codificação
da lei bizantina em língua grega.
Os esforços de Romano I Lecapeno,
de Nicéforo II Focas e de Basílio
II no sentido de recuperar os territórios
perdidos para o Islã viram-se recompensados
pelas sucessivas vitórias que reconquistaram
a Síria, Jerusalém e Creta.
Durante esse período produziu-se
a conversão da Rússia ao
cristianismo (989) e consumou-se o cisma
da igreja do oriente em relação
a Roma (1054).
Com a morte do último imperador
macedônico, iniciou-se o primeiro
período da dinastia dos Comnenos,
que aproveitaram as cruzadas para tentar
a recuperação dos territórios
perdidos. O segundo período, depois
da dinastia Ducas, começou com
Aleixo I (1081-1118), imperador experiente
nas guerras fronteiriças, que lutou
contra o normando Roberto Guiscardo, a
quem derrotou, e contra os turcos. Com
Manuel I (1143-1180) recrudesceram os
ataques turcos e o imperador viu-se obrigado
a construir numerosas fortificações
ao longo das fronteiras do império,
o que produziu uma crise econômica.
Manuel I em 1176 foi derrotado pelos turcos
seldjúcidas.
Com os últimos Comnenos, a crise
alcançou proporções
insustentáveis, principalmente
sob o reinado de Andrônico I (1183-1185).
Os normandos em 1185 penetraram em Tessalonica,
o que foi aproveitado pela aristocracia
bizantina para colocar no trono Isaac
II Ângelo (1185-1195), primeiro
imperador da dinastia dos Ângelos,
durante a qual o império entrou
em decadência irrecuperável.
A rivalidade com as repúblicas
italianas pelo domínio comercial
no Mediterrâneo produziu grave crise
econômica. Tal situação,
aliada à pressão dos turcos,
que conquistaram a Síria e Jerusalém,
e à formação do segundo
império búlgaro com a conseqüente
perda da Croácia, da Sérvia
e da Dalmácia, levou os imperadores
a tentarem recuperar o estado. Contudo,
a quarta cruzada, desviando-se de seus
propósitos religiosos, interferiu
nos assuntos internos bizantinos e não
permitiu essa recuperação.
Muito ao contrário, beneficiando-se
de uma crise sucessória, os cruzados
tomaram a cidade de Constantinopla em
1203, e restabeleceram Isaac II no trono,
nomeando Aleixo IV co-imperador. Depois
de uma revolta que depôs esses dois,
em 1204 os cruzados novamente tomaram
a cidade. Inaugurou-se assim o chamado
império latino (1204-1261) com
o reinado de Balduíno I. Os territórios
foram então divididos entre os
chefes da cruzada, formando-se os reinos
independentes de Tessalonica, Trebizonda,
Épiro e Nicéia. As lutas
entre esses reinos pela supremacia e pelo
domínio econômico da região
não demoraram. Ao mesmo tempo,
ocorriam ataques turcos e búlgaros,
e os bizantinos tentavam recuperar seu
império.
Durante o reinado de Balduíno II,
homem pouco capacitado para as questões
políticas, os bizantinos retomaram
o poder. Foi Miguel VIII Paleólogo
quem, no ano de 1261, se apoderou de Constantinopla,
sem que houvesse nenhum enfrentamento
bélico. A época dos Paleólogos
significou um renascimento artístico
e cultural em Constantinopla, embora tenha
assistido à progressiva desintegração
de seu império: os limites geográficos
do território bizantino se reduziam
ante o irrefreável avanço
dos turcos otomanos, que se apoderaram
das principais cidades gregas da Anatólia
e conseguiram conquistar Galípoli
(1354) e Adrianópolis (1362), o
que ameaçou seriamente as possessões
bizantinas da Tessalonica. Os sérvios,
por sua vez, estenderam sua zona de influência
à Albânia e ao norte da Macedônia,
apesar de sua expansão ter sido
contida em 1389, também pelo poderio
turco.
Em 1422, quase ao fim do reinado de Manuel
II, os turcos sitiaram pela primeira vez
Constantinopla e em 1430 ocuparam a Tessalonica.
O novo imperador bizantino, João
VIII Paleólogo, dispôs-se
então a retomar as negociações
para a união das igrejas Ortodoxa
e Católica. A proposta foi levada
ao Concílio de Florença,
em 1439, e os ortodoxos por fim concordaram
em submeter-se à autoridade de
Roma. A união de Florença
acorreu em ajuda ao império bizantino,
mas em 1444 sofreu grave derrota em Varna.
Esta foi a última tentativa por
parte do Ocidente de salvar Constantinopla.
Constantino XI Paleólogo foi o
último imperador bizantino. Os
turcos cortaram as comunicações
de Constantinopla, isolando-a economicamente.
Compreendendo o perigo que a cidade corria,
o imperador quis restabelecer a unidade
religiosa com Roma para que os ocidentais
fossem em seu auxílio. Mas, apesar
dessas desesperadas tentativas, o sultão
otomano Mehmet II sitiou Constantinopla
em abril de 1453 e em maio transpôs
as muralhas da cidade.
Em 1461, os últimos redutos bizantinos
-- o reino de Trebizonda e o regime despótico
da Moréia -- sucumbiram à
pressão das tropas otomanas. Com
a queda da gloriosa Constantinopla e dessas
duas regiões, deixava de existir
o império bizantino, cujos territórios
ficaram submetidos ao domínio turco.
Constantinopla, desde então, passaria
a chamar-se Istambul.
O império bizantino, herdeiro da
tradição helenística
e romana, desenvolveu uma cultura de grande
valor histórico, não só
por seu trabalho de conservação
e difusão daquela tradição,
mas também pela criação
de modelos próprios que haveriam
de sobreviver na Grécia e na área
de influência da Igreja Ortodoxa,
depois da queda de Constantinopla. Além
disso, a arte e a ciência da civilização
bizantina exerceram enorme influência
sobre a evolução cultural
européia, sobretudo depois da queda
de Constantinopla, quando numerosos artistas
e sábios emigraram para a Itália,
onde seus conhecimentos contribuíram
para desenvolver o processo renascentista.
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