O
legado das antigas culturas andinas,
como a de Chavín, Paracas, Huari,
Tiahuanaco e outras, foi o alicerce
sobre o qual o império inca desenvolveu
uma civilização agrária
e teocrática que, apesar de seu
poderio e extensão, não
conseguiu resistir ao avanço
dos conquistadores espanhóis.
O império inca, também
denominado Tahuantinsuyo (as quatro
direções), remonta ao
século XII. Teve seu período
mais próspero no século
XV, quando se expandiu geográfica
e culturalmente. Em meados do século
XVI, reunia mais de 12 milhões
de pessoas, que falavam pelo menos vinte
línguas. Havia conquistado um
vasto território, que se estendia
ao longo do oceano Pacífico e
da cordilheira dos Andes, desde o rio
Putumayo (que marca atualmente a fronteira
norte do Equador) até o rio Maule,
no Chile central, cobrindo cerca de
4.800km de extensão.
História. A palavra inca significa
"chefe", "príncipe".
Os conquistadores espanhóis chamaram
os nativos de "povo dos incas"
e ignora-se o nome que davam a si mesmos.
Os incas não possuíam
sistema de escrita, nem deixaram registros
históricos. Seu passado foi reconstruído
por meio das lendas transmitidas por
tradição oral. Os fatos
mais antigos referem-se ao vulto lendário
do primeiro soberano, Manco Cápac
I, que se estabeleceu com a família
no vale de Cuzco e dominou os povos
que ali habitavam, no fim do século
XII. Manco Cápac foi sucedido
por Sinchi Roca, Lhoque Yupanqui e Mayta
Cápac. Com o último, no
século IV, na época da
grande seca que assolou os Andes centrais,
iniciou-se a anexação
dos vales vizinhos às terras
incas.
As conquistas consolidaram-se com os
feitos militares dos soberanos Cápac
Yupanqui, Inca Roca, Yahuar Huacac e,
principalmente, Viracocha. Os territórios
ocupados passaram a ser controlados
por guarnições militares
e funcionários incas. O império
organizou-se politicamente com a unificação
dos antigos povos autônomos, que
continuaram desfrutando de relativa
liberdade. Mantiveram-se usos e costumes
locais, mas foram impostos elementos
de coesão, como a língua,
a religião (culto ao Sol) e tributos.
O império inca histórico
teve início com Pachacútec
Inca Yupanqui, que ocupou o trono a
partir de 1438. A ele atribuem-se os
projetos de Cuzco, a construção
do templo do Sol e a adoção
do sistema de cultivo em terraços.
Em seu governo, o império expandiu-se
para o sul, até o lago Titicaca,
e para o norte, até a região
de Huánuco. O exército
era formado, em sua maioria, por guerreiros
recrutados entre os povos dominados.
Pachacútec iniciou a prática
do mitmac, sistema pelo qual vários
grupos de habitantes das regiões
conquistadas eram deportados para outras
regiões e substituídos
por colonos já pacificados, para
prevenir possíveis rebeliões.
No governo de Túpac Inca Yupanqui,
filho e sucessor de Pachacútec,
o império atingiu o apogeu. Entre
1471 e 1493, os incas conquistaram todo
o planalto andino e os territórios
setentrionais do Chile e Argentina atuais.
Uma série de rebeliões,
sufocadas com dificuldade, irrompeu
no governo seguinte, de Huayna Cápac.
Com ele, o império alcançou
sua maior extensão geográfica,
mas, depois de sua morte, foi dividido
entre seus filhos, Huáscar e
Atahualpa. A luta pelo poder levou-os
a uma guerra civil no momento da chegada
dos espanhóis, que tiveram a
conquista do território favorecida
pelo progressivo enfraquecimento do
império.
Francisco Pizarro chegou ao território
inca em 1531. No ano seguinte conseguiu
capturar Atahualpa, e em 1533, no mesmo
ano da morte deste, os espanhóis
ocuparam Cuzco e reconheceram Manco
Cápac II como imperador. Aos
poucos, entretanto, os conquistadores
saquearam e destruíram palácios
e cidades e escravizaram a população.
A cultura inca desapareceu gradualmente,
apesar de alguns núcleos de resistência,
como o do último imperador, Manco
Inca, decapitado em 1572.
Organização política
e social. O núcleo da estrutura
social e política dos incas era
o ayllu ou clã, grupo tribal
cuja chefia era confiada ao membro mais
velho. Cada ayllu destinava dez homens
ao serviço militar, ao cultivo
das terras e ao trabalho nas minas e
na construção de obras
públicas. Reunidos, os ayllus
formavam distritos, que integravam as
quatro regiões em que se dividia
o império, os suyus, governados
por apos, pertencentes à nobreza.
A organização social obedecia
a uma rígida hierarquia. O inca
(imperador), venerado pelo povo como
filho do Sol, exercia o poder supremo
e era o chefe temporal e religioso do
povo. Para preservar a pureza da dinastia,
casava-se com a irmã mais velha,
embora lhe fosse facultado manter várias
concubinas, e o império transmitia-se
a um filho legítimo, não
necessariamente o primogênito.
A aristocracia, composta de membros
da família do imperador, ocupava
os altos cargos do império e
possuía as melhores terras. O
segmento social imediatamente inferior
era o dos curacas, ou chefes locais.
A escala hierárquica prosseguia
com os hatum runa (agricultores e artesãos),
que cultivavam as próprias terras.
O trabalho obrigatório constituía
seu tributo à religião
e ao estado. Os yanaconas, ou servos,
e os mitimaes, prisioneiros de guerra,
formavam a camada social mais baixa.
Economia. Dirigida pelo estado, a economia
inca era acima de tudo agrária
e baseada no plantio de batata e milho.
As técnicas eram muito rudimentares,
pois não se conhecia o arado.
Os incas, no entanto, desenvolveram
um sistema de irrigação
com canais e aquedutos. As terras pertenciam
ao estado e eram repartidas, a cada
ano, entre os vários estamentos
sociais. Não existia, portanto,
a propriedade privada. A aristocracia
recebia as melhores terras, cultivadas
pelas classes mais baixas. Na pecuária,
também importante, destacavam-se
os rebanhos de lhamas, alpacas e vicunhas,
que forneciam carne, leite e lã,
além de serem usadas no transporte.
O comércio não era importante
e não existia moeda. Os incas
desconheciam a roda, mas construíram
uma excelente rede de estradas que ligava
Cuzco a todo o resto do império.
Cultura. Os incas desconheciam a escrita,
mas sua tradição oral
foi registrada pelos conquistadores
espanhóis. Possuíam um
sistema peculiar de registro, provavelmente
utilizado apenas para números,
chamado quipus (cordéis de cores
variadas, com nós em determinadas
posições), utilizados
para avivar a memória. Seu idioma,
o quíchua, foi elemento importante
de unidade nacional.
São notáveis os trabalhos
de arquitetura e engenharia inca. As
monumentais construções
de pedra eram de grande simplicidade
e beleza, embora não se utilizassem
o arco, a coluna e a abóbada.
Os principais monumentos são
o templo de Coricancha, em Cuzco, as
fortalezas de Sacsahuamán, Pukara
e Paramonga e as ruínas de Machu
Picchu. Os artesãos incas eram
peritos na lavra de ornamentos de ouro
e prata e deixaram peças admiráveis
feitas nesses metais, em cobre e cerâmica.
Excelentes tecelões, decoravam
tecidos de vicunha e algodão
com penas coloridas.
Religião. Com inteligente visão
política, os incas incorporaram
deuses e crenças dos povos conquistados,
num sincretismo religioso que explica
a coexistência da religião
oficial e de vários cultos e
rituais derivados do ciclo agrícola.
Ao deus Sol, Inti, considerado pai da
nobreza inca, eram consagrados os principais
templos. A reforma religiosa do imperador
Pachacútec substituiu o culto
de Inti pelo de Viracocha. Segundo historiadores,
Viracocha tinha sido o deus supremo
de civilizações pré-incaicas
e era visto como herói civilizador,
criador da Terra, dos homens e dos animais.
Apu Illapu, senhor dos raios e da chuva,
era o protetor dos guerreiros e camponeses.
Em tempos de seca, a ele ofereciam-se
sacrifícios (às vezes
humanos). Entre as divindades femininas,
Mamaquilla era a Lua, esposa do Sol,
em torno da qual se organizava o calendário
das festas agrícolas e religiosas.
Pacha Mama, designação
da mãe-terra, protegia os rebanhos
de lhamas. Seu equivalente masculino,
Pachacámac, era cultuado sobretudo
na região litorânea. O
mar e as estrelas também representavam
manifestações divinas.
As cerimônias se realizavam ao
ar livre. Os templos tinham em geral
um só recinto e habitações
anexas para os sacerdotes. Construíram-se
grandes templos em localidades importantes,
como Cuzco e Vilcas-Huamán, considerado
o centro geográfico do império.
Junto ao templo de Cuzco, dedicado a
Inti, ficavam as "casas do saber"
-- onde se formavam contadores, cronistas
e outros sábios -- e a "casa
das virgens do Sol", que deviam
permanecer castas e dedicadas ao culto
de Inti, salvo se escolhidas como concubinas
pelo imperador ou por ele oferecidas
a favoritos. A casta sacerdotal, vinculada
à nobreza, detinha grande poder
e possuía terras. Os sacerdotes
eram considerados funcionários
imperiais e deviam obediência
ao sumo-sacerdote -- o huillac humu,
de linhagem nobre --, radicado no templo
de Cuzco.
Os sacrifícios constituíam
parte essencial da religião dos
incas. Nas ocasiões importantes,
exigiam-se sacrifícios de animais
ou pessoas, mas o comum eram as oferendas
de flores, bebidas, folhas de coca e
vestes, lançadas ao fogo sagrado.
As diversas festividades, em que se
realizavam procissões e danças
rituais, eram estabelecidas de acordo
com os ciclos agrícolas. Atribuíam-se
as calamidades públicas à
inobservância de algum preceito
ou ritual, que devia ser confessada
e expiada para acalmar a cólera
divina.
Os sacerdotes desempenhavam a função
de curandeiros, praticavam exorcismo
e faziam previsões antes de qualquer
acontecimento público ou privado
importante. Nos pontos mais altos dos
Andes erguiam-se montes de pedras, aos
quais o viajante acrescentava a sua
para pedir uma boa travessia.
Construíam-se grandes túmulos
e monumentos funerários, pois
os incas acreditavam na sobrevivência
da alma depois da morte: os que tinham
obedecido às ordens do imperador
sobreviviam confortados pelo Sol, enquanto
os insubordinados permaneciam eternamente
sob a terra.
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