Provavelmente
a primeira civilização
a florescer no hemisfério ocidental,
os maias ocuparam a América Central
por mais de vinte séculos e atingiram
um grau de evolução, no
que se refere ao conhecimento de matemática
e astronomia, capaz de sobrepujar as
culturas européias da mesma época.
A cultura maia floresceu entre o início
da era cristã e a chegada dos
conquistadores espanhóis, no
século XVI, num vasto território
que abrange Belize, parte da Guatemala
e de Honduras e a península de
Yucatán, no sul do México.
Os maias não formavam um povo
único, e sim uma reunião
de diferentes grupos étnicos
e lingüísticos como os huastecas,
os tzental-maia e os tzotzil.
Há poucos relatos contemporâneos
à conquista espanhola. Os espanhóis,
no afã de erradicar o politeísmo
e introduzir a fé cristã,
destruíram a maioria dos códices
maias, manuscritos com representações
de cenas e hieróglifos de ambos
os lados. As primeiras escavações
arqueológicas em ruínas
maias foram realizadas no fim do século
XVIII, mas as explorações
sistemáticas só começaram
na década de 1830. Com base nas
descobertas iniciais a respeito do sistema
de escrita dos maias, revelado no princípio
e em meados do século XX, os
antropólogos imaginaram que a
sociedade maia era pacífica e
totalmente devotada a suas atividades
religiosas e culturais, em contraste
com os impérios indígenas
mais guerreiros e sanguinários
do México central. Contudo, a
decifração completa da
escrita hieroglífica maia forneceu
um retrato mais verdadeiro da cultura
e da sociedade daquele povo. Descobriu-se
que muitos dos hieróglifos representavam
histórias de soberanos que moviam
guerra a cidades rivais e sacrificavam
prisioneiros em honra aos deuses.
História. Os ancestrais do povo
maia foram, provavelmente, grupos mongóis
que atravessaram uma faixa de terra
entre a Sibéria e o Alasca, onde
hoje é o estreito de Bering,
há cerca de 15.000 anos, no final
do pleistoceno. Na reconstrução
histórica da evolução
dos maias, distinguem-se três
grandes períodos: o pré-clássico
ou formativo, o clássico ou antigo
império e o pós-clássico
ou novo império.
Período pré-clássico
ou formativo (1500 a.C.-250 da era cristã).
Os maias organizaram-se inicialmente
em pequenos núcleos sedentários
baseados no cultivo do milho, feijão
e abóbora. Construíram
centros cerimoniais que, por volta do
ano 200 da era cristã, evoluíram
para cidades com templos, pirâmides,
palácios e mercados. Também
desenvolveram um sistema de escrita
hieroglífica, um calendário
e uma astronomia altamente sofisticados.
Sabiam fazer papel a partir da casca
de fícus e com ele produziam
livros.
Período clássico ou antigo
império (séculos III-IX).
Em seu auge, a civilização
maia abrangia mais de quarenta cidades
e acredita-se que a população
tenha alcançado dois milhões
de habitantes, a maioria dos quais ocupava
as planícies da região
onde hoje é a Guatemala. As principais
cidades eram Tikal, Uaxactún,
Copán, Bonampak, Palenque e Río
Bec. A população vivia
fora dos grandes centros e as classes
altas em bairros próximos. Disperso
em aldeias dedicadas à agricultura,
o povo deslocava-se até os núcleos
urbanos apenas para celebrar rituais
religiosos e fazer negócios.
A expansão territorial empreendida
no final do século IV para o
oeste e o sudeste fez surgir os centros
populacionais de Palenque, Piedras Negras
e Copán. Impulsionados provavelmente
pelo aumento populacional que resultou
de um período de excedentes agrícolas,
os maias prosseguiram rumo ao norte
até controlarem toda a península
de Yucatán. O apogeu cultural
-- de que dão testemunho as ruínas
dos templos de Palenque, Tikal e Copán,
as numerosas estelas com relevos hieroglíficos
e a rica cerâmica policromada
e figurativa -- ocorreu na segunda metade
do século VIII. Acredita-se que
nesse período as cidades-estado
maias formavam uma espécie de
federação de caráter
teocrático e estritamente hierarquizada
em diferentes classes sociais.
Seguiu-se a esse período pacífico
uma fase de decadência cujas causas
são desconhecidas. Possivelmente
uma catástrofe, uma invasão
estrangeira inesperada ou uma epidemia,
justifique a abrupta mudança
de rumos. Uma revolta dos camponeses
contra os sacerdotes e o empobrecimento
do solo são, no entanto, os motivos
mais plausíveis que teriam levado
os maias a abandonarem os núcleos
urbanos e arredores para se instalarem
ao norte de Yucatán, onde começou
a reorganização do estado
que originou o novo império.
Período pós-clássico
ou novo império (séculos
X-XVI). Depois que a grande civilização
maia da região central entrou
em decadência, a da porção
setentrional da península de
Yucatán atingiu seu apogeu. O
novo império ou período
pós-clássico sofreu forte
influência mexicana, como atestam
o militarismo e o culto a Kukulcán
(Quetzalcóatl, para os toltecas),
simbolizado pela figura da serpente
emplumada. Os núcleos principais
desse período eram Chichén
Itzá, Uxmal e Mayapán.
No final do século XII, a cidade
de Mayapán passou a dominar toda
a península e organizou um império
que durou até meados do século
XV, quando líderes de outras
cidades rebelaram-se contra essa hegemonia.
Mayapán foi arrasada, e iniciou-se
um novo e longo período de anarquia
e desintegração da civilização
maia. Ao caos resultante das lutas entre
diversas cidades independentes pela
primazia somaram-se desgraças
naturais como o furacão de 1464
e a peste de 1480. Centros outrora esplendorosos
foram abandonados e os maias voltaram
a Petén, na região central.
Os espanhóis, que chegaram à
costa de Yucatán em 1511, tiveram
sua tarefa de conquista facilitada pela
decadência maia e sua fragmentação
interna. No final da década de
1520, todos os territórios de
influência maia haviam sido dominados.
Pedro de Alvarado conquistou a Guatemala
em 1525, e Francisco de Montejo ocupou
em 1527 o Yucatán, cuja conquista
foi consolidada por seu filho e homônimo
em 1536. Apenas a região central,
sob controle dos itzás, permaneceu
independente até 1697, quando
foi ocupada por Martín de Ursúa.
Organização política
e social. Extremamente hierarquizada,
a sociedade maia contava em cada cidade-estado
com uma autoridade máxima, de
caráter hereditário, dita
halach-uinic ou "homem de verdade",
que era assistido por um conselho de
notáveis, composto pelos principais
chefes e sacerdotes. O halach-uinic
designava os chefes de cada aldeia (bataboob),
que desempenhavam funções
civis, militares e religiosas. A suprema
autoridade militar (nacom) era eleita
a cada três anos. Outros cargos
importantes eram os guardiães
(tupiles) e os conselheiros (ah holpopoob).
A nobreza maia incluía todos
esses dignitários, além
dos sacerdotes, guerreiros e comerciantes.
A classe sacerdotal era muito poderosa,
pois detinha o saber relativo à
evolução das estações
e ao movimento dos astros, de importância
fundamental para a vida econômica
maia, baseada na agricultura. O sumo
sacerdote (ahau kan) dominava os segredos
da astronomia, redigia os códices
e organizava os templos. Tanto as artes
quanto as ciências eram de domínio
da classe sacerdotal. Abaixo do sumo
sacerdote havia os ahkim, encarregados
dos discursos religiosos, os chilan
(adivinhos) e os ahmén (feiticeiros).
Os artesãos e camponeses constituíam
a classe inferior (ah chembal uinicoob)
e, além de se dedicarem ao trabalho
agrícola e à construção
de obras públicas, pagavam impostos
às autoridades civis e religiosas.
Na base da pirâmide social estava
a classe escrava (pentacoob), integrada
por prisioneiros de guerra ou infratores
do direito comum, obrigados ao trabalho
forçado até expiarem seus
crimes.
Economia. A base da economia era a agricultura
primitiva praticada nas milpas, unidades
de produção agrária.
O trato da terra era comunal, em sistema
rotativo de culturas, sem adubagem ou
técnica elaborada, o que levava
ao rápido esgotamento do solo
e seu conseqüente abandono.
Na preparação do terreno
a ser cultivado, os maias cortavam as
árvores e arbustos com machados
de pedra e depois queimavam-nos. As
sementes eram plantadas em buracos cavados
no solo por estacas de madeira pontiagudas.
Esgotada a terra, os maias a deixavam
alguns anos em repouso, sem cultivar,
e novas áreas da floresta eram
desmatadas para o plantio. As observações
astronômicas davam aos maias o
domínio sobre o fenômeno
da mudança das estações,
o que permitia obter melhores colheitas.
Os principais produtos cultivados eram
em primeiro lugar o milho, mas também
feijão, abóbora, vários
tubérculos, cacau, mamão,
abacate, algodão e tabaco. Os
excedentes da colheita se destinavam
ao comércio, na base do escambo
ou troca, que alcançou notável
desenvolvimento entre as principais
cidades e gerou respeitada classe de
comerciantes.
Os maias também se dedicavam
à caça e à pesca
e criavam animais para a alimentação.
Desconheciam no entanto a tração
animal, o arado e a roda. Por falta
de matéria-prima local não
conheceram também a metalurgia,
mas desenvolveram importante indústria
lítica (de pedra) que lhes fornecia
armas, enfeites e instrumentos de trabalho.
Tiveram ainda muita importância
na civilização maia a
produção de cerâmica
(embora não conhecessem a roda
de oleiro), a cestaria, a tecelagem
e a arte lapidária.
Cultura e conhecimento. A ascendência
da cultura maia se revela no terreno
intelectual. Os sacerdotes, detentores
do saber, eram responsáveis pela
organização do calendário,
pela interpretação da
vontade dos deuses por meio de seus
conhecimentos dos astros e da matemática.
Os maias adoravam vários deuses
que puderam ser identificados em códices
do período pós-clássico
e em muitos monumentos. Na maioria estavam
associados à natureza, como os
deuses da chuva, do solo, o deus Sol,
a deusa Lua e um deus do milho. Para
fazer pactos com esses deuses, o povo
sacrificava animais e até seres
humanos, em escala reduzida, e oferecia
o próprio sangue. A partir do
século X, passaram a adorar Kukulcán.
O desenvolvimento da aritmética
permitiu cálculos astronômicos
de notável exatidão. Os
maias conheciam o movimento do Sol,
da Lua e de Vênus, e provavelmente
de outros planetas. Inventores do conceito
de abstração matemática,
os maias criaram um número equivalente
a zero -- conceito até então
desenvolvido apenas por uma civilização
hindu primitiva -- e estabeleceram o
valor relativo dos algarismos de acordo
com sua posição. Seu sistema
de numeração de base vinte
era simbolizado por pontos e barras.
Graças a estudos minuciosos do
movimento celeste em observatórios
construídos para essa finalidade,
os astrônomos maias foram capazes
de determinar o ano solar de 365 dias.
No calendário maia, havia um
ano sagrado (de 260 dias) e um laico
(de 365 dias), composto de 18 meses
de vinte dias, seguidos de cinco dias
considerados nefastos para a realização
de qualquer empreendimento. Também
adotavam um dia extra a cada quatro
anos, como ocorre no atual ano bissexto.
Os dois calendários eram sobrepostos
para formar a chamada roda ou calendário
circular. Para situar os acontecimentos
em ordem cronológica usava-se
o método da "conta longa",
a partir do ano zero, correspondente
a 3114 a.C.. A inscrição
da data registrava o número de
ciclos -- kin (dia), uinal (mês),
tun (ano), katun (vinte anos), baktun
(400 anos) e alautun (64 milhões
de anos) -- decorridos até a
data considerada. Acrescentavam-se informações
sobre a fase da Lua e aplicava-se uma
fórmula de correção
de calendário que harmonizava
a data convencional com a verdadeira
posição do dia no ano
solar.
No campo da medicina, a ciência
associava-se à magia tanto no
diagnóstico quanto no tratamento
das doenças. As causas das enfermidades
podiam ser atribuídas a fenômenos
naturais ou sobrenaturais e, segundo
o caso, o médico ou feiticeiro
receitava infusões, ungüentos,
sangrias ou poções mágicas.
Informações sobre os conhecimentos
científicos e os fatos históricos
da civilização maia constam
das diversas estelas hieroglíficas,
algumas ainda indecifradas, e dos códices,
a maior parte dos quais foi destruída
pelos conquistadores espanhóis.
Restam apenas três códices,
em Dresden, na Alemanha; em Madri, na
Espanha; e em Paris, na França.
Outra importante fonte para o estudo
dessa cultura milenar são os
textos em língua maia que foram
produzidos em alfabeto latino, no século
XVI. Entre estes destacam-se o Popol
Vuh, que abrange a mitologia e a cosmologia
da civilização maia pós-clássica,
e os livros de Chilam Balam, relatos
históricos mesclados com mitos,
adivinhações e profecias.
Arte. No auge da civilização,
a arte dos maias era fundamentalmente
diferente de todas as outras da região,
por ser muito narrativa, barroca e,
com freqüência, extremamente
exagerada, em comparação
com a austeridade de outros estilos.
A arquitetura, voltada sobretudo para
o culto religioso, lançava mão
de grandes blocos de pedra e caracterizava-se
por abóbadas falsas e hieróglifos
esculpidos ou pintados como motivos
de decoração.
As construções que mais
simbolizam a arquitetura da civilização
são os templos decorados com
murais e símbolos esculpidos,
e construídos sobre pirâmides,
com topos terraceados. Uma escadaria
central num dos lados da pirâmide
conduzia o sacerdote ao interior do
santuário, enquanto o povo permanecia
no sopé do monumento. Diante
da escadaria, ergue-se, quase sempre,
um monólito com a figura de um
personagem aparatosamente vestido, rodeado
de motivos simbólicos e hieróglifos.
Um dos mais importantes monumentos desse
tipo está situado nas ruínas
de Chichén Itzá. Os palácios,
com várias salas e pátios
internos, tinham plantas simples e retangulares.
Outras construções notáveis
foram os observatórios astronômicos
e as quadras para a disputa de um jogo
de bola cujas regras são pouco
conhecidas.
A escultura maia era subordinada à
arquitetura como elemento decorativo
e é também rica fonte
de informações sobre a
cultura. Em pedra, estuque e madeira,
as esculturas decoravam lápides,
dintéis, frisos e escadarias.
Era ainda freqüente a instalação
ao ar livre de estelas com relevos comemorativos,
tais como as de Copán e Uaxactún.
Na pintura, são importantes os
murais multicoloridos, com técnica
de afresco, sobre temas religiosos ou
históricos. A pintura era também
empregada para decorar a cerâmica
e ilustrar os códices. Notáveis
exemplos de pintura mural foram encontrados
em Bonampak (onde destaca-se a magnífica
indumentária representada) e
em Chichén Itzá. Os afrescos
do templo de Cit Chac Cah (estado de
Chiapas), possivelmente do século
VII, foram executados em estilo realista
e cores vivas, nas paredes das três
salas de cinco metros de altura, com
cenas religiosas e profanas.
A cerâmica maia pode ser dividida
em dois grupos: os utensílios
de cozinha do dia-a-dia, normalmente
não-decorados, mas às
vezes com formatos geométricos;
e oferendas fúnebres. Os vasos
destinados a acompanhar o corpo reverenciado
eram geralmente pintados ou entalhados
com cenas naturalistas ou freqüentemente
macabras. Em Uaxactún, encontraram-se
estatuetas muito primitivas, todas representando
mulheres. Do período Chicanel,
são outras estatuetas e vasos
de formas simples, vermelhos e negros.
Na fase seguinte, dita Tsakol, a cerâmica,
mais apurada, apresenta grande diversidade
de formas e acentuada estilização
(Tikal e Uaxactún). A fase final,
conhecida como Tepeu, caracteriza-se
pela delicadeza das formas dos vasos,
decorados com cenas e inscrições.
A pedra mais preciosa para os maias
era o jade, bastante trabalhado pelos
artesãos e modelado principalmente
em forma de placas, relevos ou contas
de colar. Dos trabalhos em jade, restam
alguns exemplos como a placa de Leyden
(Tikal) e a do Museu Britânico,
de extraordinária perfeição.
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