Mediunidade
a serviço dos semelhantes!
Diz
você que isso custa caro, e
fala em renúncia e problemas
pessoais. Mas, esquecer-se-á
você dos benefícios que
os dotes medianímicos trazem
a todos aqueles que os mobilizam na
extensão das boas obras? Olvidará
quantas vezes a empresa do bem lhe
arrebatou o coração
às garras do mal? Pense nisso,
meu caro missivista, e não
atire fora as suas vantagens que superam
de muito os abstáculos que,
proventura, lhe estorvem a vida.
A
esse respeito, conto a você,
em versão nova, uma lenda antiga
que corre o mundo cristão,
desde longo tempo.
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Certo
homem, que se reencarnara a fim de
educar-se em duras provas, quais sejam
enfermidades, abandono e solidão,
montou a choupana que lhe serviria
de casa à beira de estrada
deserta e poeirenta, a cavaleiro de
fundo vale, onde uma fonte permanente
mantinha no chão seco larga
faixa de verdura.
Viajores
iam e vinham e, fôssem eles
ocupantes de carruagens, ou simplesmente
pobres romeiros a pé, ei-los
que paravam junto ao casebre, contentes
e agradecidos por encontrarem, ali,
com o homem solitário, uma
bênção muito rara
na região: a água pura.
O
ermitão, em demonstrações
de bondade incessante, várias
vezes, diariamente, descia a encosta
agressiva até o manancial e
enchia o cântaro, regressando
vereda acima, tão-só
no intuito de oferecer água
cristalina aos viajantes diversos.
Na
faina de auxiliar, entrou em contacto
com um Espírito angélico
a quem o Senhor incumbira de velar
por todos os que transitassem pela
extensa rodovia, e o eremita, profundamente
emocionado e feliz, passou a chamar-lhe
Anjo da Estrada.
Estabeleceu-se
para logo, entre os dois, suave convívio.
Nenhum dos passantes lhe via o celestial
companheiro; entretanto, para o solitário,
aquele benfeitor espiritual se transformara
em presença sublime. Se cansado,
eis que o Anjo lhe restaurava as energias;
se doente, recebia dele o remédio
salutar. Se triste, recolhia-lhe as
exortações confortativas
e, quando em dúvida sobre doenças
e dificuldades naturais do cotidiano,
tomava-lhe as ssugestões tocadas
de amor. O Amigo do Céu descia
com ele até à fonte,
tantas vezes quantas fôssem
necessárias, ajudava-o a transportar
o grande vaso cheio, narrava-lhe histórias
das Mansões Divinas, recobria-lhe
a alma de tranquilidade e júbilo
sereno.
O
tempo rolou e trinta anos dobraram
sobre aquela amizade entre duas criaturas
domiciliadas em mundos diferentes.
A
estrada era sempre uma estalagem da
Natureza, albergando viajores que
se renovavam constantemente, mas o
ermitão, conquanto satisfeito,
mostrava agora a cabeleira branca
e os ombros caídos.
Certa
feita, um homem prático, de
passagem pelo lugar, em lhe enxergando
a cabeça vergada ao peso do
cântaro bojudo, observou-lhe,
conselheiral:
-
Amigo, porque um sacrifício
assim tão grande? Não
seria melhor e mais justo transferir
a casa para a fonte, ao invés
de buscar a fonte para casa?
O
doador de água estremeceu de
alegria. Como não pensara nisso
antes? Da ideia à realização
mediaram poucos dias... No entanto,
em carregando o velho material da
velha choca para a reentrância
do vale, ei-lo que vê o amigo
angélico em lágrimas
copiosas...
-
Anjo bom, porque choras?
E
a resposta veio célere:
-
Pois, então, não percebes?
Concedeu-me o Senhor a tarefa de proteger
as vidas de quantos se arriscaram
na estrada... Enquanto lá te
achavas, oferecendo água límpida
aos que viajam com sede, tinha eu
a permissão de trocar contigo
as bênçãos da
amizade. Mas agora... Se preferes
o menor esforço, é forçoso
que eu me resigne a distância
de ti, esperando que alguém
se decida a cooperar comigo, junto
dos viajores que me cabe amparar na
condição de zelador
do caminho!...
O
eremita não hesitou. Suspendeu
a mudança, tornou ao lugar
primitivo, retomou a sua venturosa
paz de espírito ao pé
da multidão anônima a
que prestava serviço, e preferia
trabalhar e ser feliz, em companhia
do mensageiro celeste. Com quem partiu
para o Mais Além, no dia em
que lhe surgiu a morte do corpo.
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Como
é fácil de ajuizar e
de ver, meu caro amigo, abençoe
a sua possibilidade de dessedentar
os peregrinos da romagem terrestre
com as águas puras de fé
viva, esclarecimento, pacificação
e consolo, sem se fixar nos eventuais
sacrifícios que isso lhe custe.
Você compreenderá, um
dia, que vale muito mais livrar-se
alguém de aflições
e tentações, junto dos
Espíritos Benevolentes e Amigos,
que viver à conta de nossas
próprias imperfeições
das existências passadas, e
que é muito melhor desencarnar
sofrendo, mas servindo ao próximo,
em favor da própria libertação
espiritual, que ter de acompanhar
o desgaste repelente do corpo, a pouco
e pouco, em facilidade e descanso,
para afundar, de novo, no momento
da morte, na corrente profunda de
nossas paixões e desequilíbrios.
Livro
Estante da Vida Pelo Espírito
Irmão X - Psicografia
Francisco C. Xavier