Na
aldeia de Einsiedeln, Suíça,
em 17 de dezembro de 1493 (ou em 10
de novembro do mesmo ano; há
uma divergência histórica
neste ponto), nasceu Phillipus Aureolus
Theoperastus Bombastus von Hohenheim.
Filho de Wilhelm Bombast, médico
e alquimista; e neto de Georg Bombast
von Hohenheim, Grão Mestre da
Ordem dos Cavaleiros de São João,
o jovem de baixa estatura, gago e corcunda,
aos três anos de idade, foi atacado
por um porco que lhe mutilou o genital,
fato que somado a sua aparência
física, proporcionou-lhe um complexo
de inferioridade que seguiu por toda
a vida.
Até
mesmo seu extenso nome é alvo
das discordâncias. Possivelmente,
o nome Theoperastus é uma homenagem
ao famoso pensador grego. Já
o nome Phillipus (ou Phelix), por vontade
própria e motivos desconhecidos,
foi acrescentado ao longo da vida; e
a alcunha, Aureolus, é uma alusão
"divina", dada por seus admiradores
ao longo dos anos.
Na
infância, Theoperastus acompanhava
seu pai viajando pelos povoados da terra
natal, observando a manipulação
das ervas usadas para curar enfermos
daquela região. Dessa forma,
passou a apreciar a atividade paterna.
As primeiras noções sobre
Teologia, Alquimia e Latim, foram transmitidas
por seu pai. Ainda muito jovem, foi
enviado à escola de Beneditinos
do Mosteiro de Santo André. Lá,
conheceu o notável alquimista,
Eberhard Baumgartner.
Formou-se
nos estudos tradicionais de sua época
e seguiu o caminho profissional de seu
pai, estudando medicina na cidade de
Viena e concluindo em Ferrara, ambas
na Itália. A partir deste momento,
deu início as suas viagens, passando
por Áustria, Egito, Hungria,
Tartária, Arábia e Polônia.
Em
Salzburg, Áustria, tentou estabelecer-se
como médico, mas foi expulso
da cidade porque simpatizou com agricultores
rebeldes. Recebeu o título de
cidadão em Strasburg e partiu
para Basel. Após vários
conflitos com colegas médicos
e farmacêuticos e o próprio
conselho de medicina da cidade, Theoperastus
recebeu uma ordem de prisão em
1528, forçando sua fuga da cidade.
Em Wurzburg, aprendeu com outros sábios
a manipulação de produtos
químicos, principalmente com
Tritêmio, célebre abade
e ocultista do Convento São Jorge.
Em
1536, publicou Die Grosse Wundartzney,
(Cirurgia Maior), uma coleção
de tratados médicos. Escreveu
ainda trinta e dois artigos e ilustrações,
com previsões de eventos até
o ano 2106. Para que seus escritos tivessem
uma penetração maior,
redigiu todos em alemão, e não
em latim, como era o costume.
Viajou
pelo país como uma espécie
de médico-cigano, e ficou conhecido
como "o médico dos pobres"
até voltar para Salzburgo em
1540, convidado pelo bispo da cidade.
Faleceu em 24 de setembro de 1541 com
apenas 47 anos. A causa de sua morte
não foi esclarecida. Uma hipótese
é que tenha sido vítima
de feridas infeccionadas, ocasionadas
quando, embriagado, sofreu uma queda
numa taberna. O corpo foi velado na
igreja de São Sebastião
e, conforme seu último desejo,
foram entoados os salmos bíblicos
1, 7 e 30.
Obras
Há
diversos vácuos e incoerências
na biografia deste personagem, também
conhecido como Hohenheim. Estas poucas
informações são
os registros históricos mais
confiáveis da vida de Paracelso,
que teria adotado (ou recebido de seu
pai) este apelido por ser "superior
a Celso", famoso médico
romano da Antigüidade.
Sua
vida pautada pelas polêmicas e
conturbações que sua personalidade
pouco adequada àqueles tempos
lhe infligia. Esta frase de sua autoria
exemplifica: "Ponderei comigo mesmo
que, se não existissem professores
de Medicina neste mundo, como faria
eu para aprender essa arte? Seria o
caso de estudar no grande livro aberto
da Natureza, escrito pelo dedo de Deus.
Sou acusado e condenado por não
ter entrado pela porta correta da Arte.
Mas qual é a porta correta? Galeno,
Avicena, Mesua, Rhazes ou a natureza
honesta? Acredito ser esta última.
Por esta porta eu entrei, pela luz da
Natureza, e nenhuma lâmpada de
boticário me iluminou no meu
caminho".
Além
da medicina, era versado em filosofia
e política. Mas seus escritos
estão relacionados principalmente
com a sua profissão e chegam
a mais de 8 mil páginas. Porém,
apenas uma pequena parte é conhecida
e estudada. A linguagem aplicada em
sua obra é alegórica e
passível de interpretação,
um recurso utilizado para que não
pudesse ser acusado de feitiçaria
pelo implacável mecanismo inquisitório
medieval. Conta-se que certa vez, Paracelso
queimou em público diversos livros
de Galeno e Avicena, dizendo: "Que
toda esta miséria possa ir pelos
ares como fumaça".
Médico
e Místico
Até
mesmo a forma de exercitar seu ofício
era contestada. Acreditava ele, que
a função de um médico
ia além do diagnóstico
e receituário convencional; era
necessário um estudo do paciente
e uma compreensão da doença
em aspectos como a astrologia, alquimia,
magia e outras variações
esotéricas.
A
medicina daquele tempo, baseada no pensamento
do filósofo Hipócrates,
acreditava que as doenças eram
causadas por mau funcionamento dos fluídos
do corpo humano: sangue, catarro, bílis
preta e bílis amarela. Paracelso
contestou e simplificou este conceito.
Segundo ele, os seres materiais têm
origem em quatro elementos: terra, água,
ar e fogo; e três substâncias:
enxofre, mercúrio e sal. Os primeiros
são realidades materiais compreendidas
dinamicamente. Enquanto os outros são
modalidades de comportamento da natureza.
Ou seja, o enxofre é combustível,
o mercúrio é volátil
e o sal é resistente ao fogo.
Portanto, a saúde é o
equilíbrio, e a doença
é o desequilíbrio de todas
as energias presentes no ser humano,
tanto no corpo físico como espiritual.
De
acordo com Paracelso, a cura apóia-se
em quatro bases distintas: filosofia,
astronomia, alquimia e virtus. A filosofia
significa: abrir-se ao conjunto das
forças naturais, observar essas
forças invisíveis na penetração
da realidade total e perceber o invisível
no visível. A astronomia explica
as influências dos astros na saúde
e nas enfermidades. A alquimia torna-se
útil no preparo dos medicamentos.
O termo virtus é uma alusão
a honestidade do médico que,
através do raciocínio
de Paracelso, é uma pessoa em
constante evolução e aperfeiçoamento,
e deve reconhecer a ação
da natureza invisível no doente
ou, em se tratando do remédio,
como atua no plano visível. Assim,
o conhecimento médico tem menos
a ver com conhecimento intelectual do
que com a intuição.
Paracelso
fazia freqüentes associações
entre Magia e Imaginação.
"O visível esconde o invisível,
mas apesar disso conseguimos o invisível
apenas através do visível",
dizia. Nesse caso, magia significa a
ação direta sobre as pessoas
e todos os seres, sem ajuda da matéria.
Ou seja, o mago é capaz de causar
efeitos físicos sem ajuda física.
No livro Paracelso - Alquimista, Químico,
Pioneiro da Medicina, o historiador
e filósofo Lucien Braun, cita:
"toda natureza invisível
se movimenta através da imaginação.
Se a imaginação fosse
forte o suficiente, nada seria impossível,
porque ela é a origem de toda
magia, de toda ação através
da qual o invisível (de um ou
outro modo) deixa seu rastro no visível.
A energia da verdadeira imaginação
pode transformar nossos corpos, e até
influenciar no paraíso...".
Além
disso, o médico suíço
reconheceu que a fé fortalece
a imaginação. Isso inclui
as curas milagrosas atribuídas
a ele e que não foram apenas
resultado dos medicamentos, mas serviram
para influenciar conscientemente a ação
da imaginação do próprio
paciente, de modo que agisse diretamente
no desejo de ser curado. Atualmente,
há na medicina, o chamado placebo,
uma substância sem qualquer efeito
farmacológico, prescrita para
levar o doente a experimentar alívio
dos sintomas pelo simples fato de acreditar
nas propriedades terapêuticas
do produto. De certa forma, pode-se
entender que Paracelso já fazia
uso deste recurso há mais de
500 anos. Outro fator interessante de
seu raciocínio, é que
ele também associava as características
exteriores de uma planta a sua função
medicinal. Por exemplo, folhas em forma
de coração foram recomendadas
para doenças cardíacas.
Seu
Legado
Personagens
como Van Helmont e Friedrich Franz Mesmer
deram continuidade aos trabalhos de
Paracelso. O pensamento e a atitude
do sábio suíço
influenciaram não apenas as ciências
e o ocultismo de sua época, mas
até hoje são lembrados
e utilizados como base de estudos modernos.
Até mesmo durante uma epidemia
de cólera, em 1830, seu túmulo
foi objeto de peregrinação.
Sabe-se
que Paracelso nasceu no ano de 1493,
o dia e o mês ainda são
discutíveis. Mas isso não
é tão importante, porque
foi um homem além de seu tempo,
além das datas e do pensamento.
Seu legado de obras escritas e ensinamentos
compõem o que atualmente é
chamado de Medicina Experimental. Formulou
os primeiros conceitos da homeopatia,
farmacologia, medicina psicossomá-
tica, psicologia e bioenergética.
Um médico esotérico que,
como todos os outros "não
esotéricos", tinha apenas
um objetivo: prolongar a existência
humana na Terra.
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