A
história do movimento
espírita está ainda
por ser escrita de
um modo integral e
objetivo, e em correspondência
com os critérios que
modernamente definem
a sistematização historiográfica.
As
carências e deficiências
se apresentam, em
vários aspectos fundamentais:
vazios na informação,
extravio de documentos
e pouco interesse
em sua conservação
e catalogação; escassa
presença de profissionais
de história no meio
espírita. E, adicionalmente,
algo que consideramos
pernicioso, a contaminação
da informação histórica
por parte de adeptos
exaltados, que adotam
uma atitude maniqueísta
quando escrevem sobre
certos personagens
do Espiritismo, seja
cantando-lhes panegíricos
e loas exageradas
a seus preferidos,
colocando-os em pedestais
quase sobre-humanos
ou, ao contrário,
negando todo o mérito
a quem poderiam representar
opiniões diferentes
das que eles adotam.
Havendo
perdido toda a objetividade,
escrevem a história
não como ela é, mas
com como gostariam
que ela fosse. O próprio
Kardec e outras figuras
fundamentais do pensamento
espírita, têm sofrido
numerosas distorções,
que é necessário ir
corrigindo.
Dizemos
isso a propósito do
personagem do qual
nos ocupamos agora
e que, com toda justiça,
o jornal Abertura
selecionou entre os
20 pensadores espíritas
de maior relevância
no século 20, nosso
querido e admirado
Manuel S. Porteiro.
Que, não apenas batalhou
a favor de uma visão
livre pensadora, progressista
e humanista da doutrina
kardecista, como também
enfrentou as desqualificações
que lançaram a seu
tempo os setores místicos
e conservadores do
Espiritismo na Argentina,
seu país natal. Acusaram-no
de “comunista”, “ateu”,
“anti religioso”e
outros adjetivos.
E, após sua desencarnação,
a estratégia desses
setores mudou de rumo
e decidiram estender
um manto de silêncio
sobre seu nome, sobre
sua vida e seu pensamento.
Chegou-se a proibir
“fraternalmente”,
a leitura de seus
livros.
Quando
nos dispusemos a escrever
um livro para recuperar
sua memória histórica,
conferir os dados
básicos de sua trajetória
vital, e dar a conhecer
seu pensamento às
novas gerações espíritas,
tropeçamos com essa
muralha de silêncio
que se ergueu sobre
sua vida e sua obra.
Felizmente, pudemos
faze-lo e nossa obra
O Pensamento Vivo
de Porteiro se encontra
em suas edições em
espanhol e em português,
a disposição dos leitores
que não se atemorizam
ante os anátemas e
as proibições inquisitoriais
de algumas federações.
Porteiro
foi um espírita completo.
Humilde trabalhador
manual, amoroso pai
de família, autodidata
que adquiriu com esforço
e imensos sacrifícios
uma extraordinária
formação intelectual,
até chegar a dominar
amplos espaços no
mundo da cultura,
da sociologia, da
filosofia e, naturalmente,
da Doutrina Espírita.
Nasceu
em Avellaneda , província
de Buenos Aires, em
25 de março de 1881
e desencarnou, ali
mesmo, em 18 de fevereiro
de 1936. Em 1910 começou
sua participações
ativa no movimento
espírita, vinculando-se
desde esse momento
à Confederação Espírita
Argentina (CEA), na
qual foi desempenhando
diversos cargos, até
chegar a ser seu presidente,
no período de abril
de 1934 a março de
1935. Dirigiu durante
vários anos seu órgão
oficial, a revista
La Idea, na qual escreveu
numerosos editoriais
e artigos sobre os
mais variados temas,
sempre sob a ótica
espírita.
Nessa
época, sob a segura
direção de Porteiro,
a CEA e La Idea constituíram
a vanguarda progressista
do Espiritismo na
América e no mundo.
A partir daí, Porteiro,
e seu grupo de abnegados
trabalhadores espíritas,
como Hugo Lino Nale,
Bernabé Morera, Ageo
Culzoni, Luis Postiglioni
e os jovens Santiago
Bossero e Humberto
Mariotti, escreviam
com paixão, viajavam
incessantemente por
todo o país, dirigindo
cursos de formação
espírita e fomentavam
as relações com o
movimento espírita
internacional.
O
meridiano principal
do mundo espírita
progressista passava
obrigatoriamente,
naquela época, pela
Argentina e Porteiro
era seu referencial
fundamental.
Eram
essas as linhas básicas
de seu pensamento
e sobre elas girava
todo o seu esforço:
sustentar a visão
integral do Espiritismo
como filosofia científica
com profundas conseqüências
morais e sociais;
rechaçar a definição
do Espiritismo como
religião ou como uma
nova variante do cristianismo;
colocar a necessidade
do estudo da Doutrina
como base para criar
a convicção espírita,
começando com as obras
de Kardec, como base
pedagógica; subordinar
a mediunidade ao enfoque
espírita para faze-la
racional, útil e orientadora;
estimular a investigação
experimental no campo
dos fenômenos mediúnicos
e paranormais; enfrentar
as superstições e
sincretismos que se
mimetizam ou disfarçam
com os rótulos espíritas;
relacionar o movimento
espírita nacional
e internacional com
as lutas pela paz
mundial, contra a
discriminação de qualquer
classe, com as campanhas
alfabetizadoras e
com todo o esforço
que tenda à construção
de uma sociedade mais
justa, livre, igualitária
e fraterna.
Esplêndidas
diretrizes que, em
si mesmas, representam
autênticos programas
para desenvolver um
Espiritismo dinâmico,
culto, livre, aberto,
adogmático, racionalista,
laico, universalista,
fraterno, solidário
e amoroso.
Para
expô-las e defendê-las,
viajou Porteiro, em
companhia de Mariotti,
para participar do
V Congresso Espírita
Internacional, realizado
em Barcelona, Espanha,
em outubro de 1934.
Nesse cenário, onde
conviviam e divergiam
as correntes latina
e saxônica do Espiritismo,
brilhou o talento
de Porteiro e a profundidade
de sua formação doutrinária
se fez sentir em diversas
exposições e conferencias
públicas, que inspiraram
respeito e fizeram-no
credor de um amplo
reconhecimento, como
um dos líderes espíritas
de maior prestígio
em sua época.
Um
elemento principal
de seu pensamento
e que constitui uma
de suas contribuições
mais originais, é
a aplicação do método
dialético na interpretação
espírita do homem,
da vida e do Universo.
Ninguém antes dele
e ninguém melhor do
que ele até agora,
soube empregar o método
dialético para sustentar
a concepção espiritualista
e ao mesmo tempo demonstrar
que, apesar do que
se aceita tradicionalmente,
as doutrinas materialistas
que se apresentam
a si mesmas como as
donas da dialética,
são em sua essência,
profundamente anti-dialéticas.
Nessa
mesma direção e ratificação
da originalidade de
suas idéias, Porteiro
mostrou-se um firme
partidário de uma
sociologia espírita,
que se traduzisse
numa proposta concreta,
na qual o Espiritismo
e o Socialismo se
conjugavam para impulsionar
a construção de uma
sociedade de maior
evolução material
e espiritual. Por
ora, pela brevidade
que impõe este artigo,
basta dizer que Porteiro,
já em seu tempo, criticou
fortemente as tendências
autoritárias, burocráticas,
estatizantes, materialistas
do socialismo marxista
e se manifestou por
um socialismo democrático,
humanista, respeitoso
das liberdades públicas
e individuais, baseado
em valores ideológicos
espiritualistas e
concretamente, espírita,
como haviam assumido
ilustres personalidades
do kardecismo como
Léon Denis e Cosme
Mariño.
Em
seus três livros publicados
Espiritismo Dialético,
Conceito Espírita
da Sociologia e Origem
das Idéias Morais,
assim como em centenas
de artigos que estão
espalhados pela imprensa
espírita de seu tempo,
se encontram magistralmente
desenvolvidas todas
suas idéias que foram,
são e continuarão
sendo, potentes focos
de luz que orientam
a todo aquele que
havendo conhecido
os princípios cardeais
do Espiritismo, deseja
aprofundar-se em sua
conseqüências morais
e sociais e queira
transitar, sem desvios,
por seus autênticos
caminhos.
Sem
dúvida alguma, Porteiro
está na galeria dos
grandes do Espiritismo
e muitos nos honra
haver contribuído
para resgatar sua
memória e exaltar
o imenso valor de
sua contribuição
à Doutrina que tanto
amou e ao movimento
a que tanto serviu.
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