A
infeliz criatura despertou no meio da
noite com violentas dores no estômago.
Sentou-se na cama suando frio e, por
mais que tentasse, não consegui
acordar seu marido, que parecia dormir
profundamente.
Desesperada,
levantou-se e dirigiu-se ao jarro dágua,
que se encontrava sobre a cômoda.
Irritou-se
por não conseguir pegá-lo.
Estranhamente suas mãos pareciam
atravessar o objeto.
Entrou
em pânico ao virar-se e deparar
consigo mesma ainda deitada na cama.
Seu total despreparo para a situação
não permitiu que registrasse
minha presença em seu aposento.
Aproximei-me e soprei em seu ouvido
a idéia do que se passava...
Como posso estar morta se ainda estou
viva? Bradou irada. Quem está
aí? Como ousa invadir minha privacidade?
Serás severamente açoitado!
A mim tal castigo não mais assustava.
Já fazia um bom tempo que fui
tão severamente açoitado
que as portas da vida espiritual abriram-se
para mim.
Ao
servir água à jovem sinhá
descuidei-me e derramei um pouco sobre
seu vestido. Foi o bastante para despertar
sua ira. Ela era apenas uma criança
naquela época, mas já
demonstrava grande orgulho e muita crueldade
para com os escravos.
Voltemos
à narrativa.
A
idéia da morte encheu seu coração
de rancor.
Praguejava
contra Deus e recusava-se a aceitar
os fatos. Acabara de casar-se pela segunda
vez, novamente com um rico fazendeiro
e, como fizera com o primeiro marido,
estava a ponto de usurpar-lhe os bens,
aumentando sua própria riqueza
material. Vivei sob a cegueira da ganância
e do orgulho e nunca mediu esforços
para permanecer em posição
de destaque na sociedade.
Não
fiquei surpreso quando nosso Mentor
me chamou e disse que minha antiga sinhá
desencarnaria naquela noite, por obra
de uma escrava que colocara veneno de
rato em seu jantar.
Não
fiquei surpreso, também, ao ser
solicitado para ir buscá-la.
Aceitei com humildade a missão
de auxiliar quem me escravizara o corpo
e me libertara a alma, a pessoa por
quem nutri grande ódio por muito
tempo.
Lá
estava eu. Armado de muita fé
e paciência.
Foram
semanas até que a sinhá
pudesse me ver. Antes disso, sofreu
ao acompanhar seu próprio enterro,
com os escárnios e comentários
maldosos de seus supostos amigos encarnados.
Ficou sabendo, afinal, o que realmente
pensavam dela.
Tentou
em vão atacar os que reviravam
seus aposentos, lutou para evitar que
suas riquezas fossem pilhadas.
Ao
ver-me, afastou-se assustada. Mais algumas
semanas se passaram até que compreendesse
que o escravo de outrora era seu igual
e, quer ela gostasse ou não,
era quem Deus designara para auxiliá-la
naquele momento.
Por
fim, exausta e vencida, amparada por
nossas preces, abrandou-se um pouco
e seguiu comigo.
Agora,
no século XXI, permanecemos ainda
no Plano Espiritual. Minha missão
é acompanhar a sinhá,
que, mesmo a contragosto, prepara-se
para voltar à Terra em família
pobre e cheia de dificuldades.
Esta
é a forma que encontrei de também
expiar os meus erros, que não
foram muitos.
Quem
sabe, em outra ocasião, eu conte
a minha história.
Que
Deus abençoe a todos.
Robério.
Escrita
por: Cleber P. Campos
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