Grande
parte da organização do
mundo moderno se deve ao império
que Roma foi capaz de construir há
dois mil anos em torno do mar Mediterrâneo.
Os idiomas falados no sul da Europa,
América Latina e outras partes
do mundo constituem uma das heranças
diretas da civilização
romana.
Sob o título Roma antiga estuda-se
todo o dilatado período que compreende
as origens de Roma, no século
VIII a.C., a fase monárquica,
a república romana e o império,
até o ano 476 da era cristã,
quando ocorre o fim do Império
Romano do Ocidente.
Origens da cidade. No século
VIII a.C., duas grandes civilizações
haviam lançado suas bases na
península itálica: nas
terras onde posteriormente se localizaria
a Toscana, as avançadas cidades
etruscas se aproximavam do auge de seu
esplendor; no sul da península
e na Sicília, a chamada Magna
Grécia implantava uma cultura
semelhante à da Hélade,
em cidades como Tarento e Siracusa.
Os demais povos que habitavam a Itália,
como os latinos e os samnitas, dispersos
entre aqueles dois grupos, encontravam-se
num estágio pouco desenvolvido
de civilização. As aldeias
que iriam formar a Roma dos reis e as
outras aglomerações rústicas
do Lácio nos séculos IX
e VIII a.C. partilhavam língua
e costumes religiosos e se unificaram
mediante essa identidade cultural.
Na
parte central da península itálica,
o rio Tibre, já próximo
de sua desembocadura, atravessava uma
região de terras pantanosas,
entre as quais se destacavam algumas
colinas cobertas de bosques. O local
era estratégico para os povos
vizinhos: os latinos ali pastoreavam
seus rebanhos; os sabinos comerciavam
o sal da costa e o transportavam rio
acima; e os etruscos afluíam
do norte para vender seus produtos manufaturados
às populações ribeirinhas,
menos desenvolvidas. Na colina do Palatino,
às margens do Tibre, estabeleceu-se
em meados do século VIII um núcleo
populacional composto de agricultores
e criadores de gado, entre os quais
devia haver também comerciantes.
Em épocas posteriores, diversos
autores recolheram e deram forma literária
a antigas lendas sobre a fundação
da cidade, que teve sua data fixada
convencionalmente em 753 a.C. Segundo
essas lendas, o fundador, Rômulo,
descendia do herói troiano Enéias
e foi amamentado, junto com seu irmão
Remo, por uma loba, que se converteu
no símbolo da cidade.
Monarquia.
De acordo com as fontes tradicionais,
sete reis governaram Roma ao longo de
dois séculos e meio, período
durante o qual o território dominado
pelos romanos passou por uma paulatina
expansão. Os quatro primeiros
monarcas, Rômulo, Numa Pompílio,
Tulo Hostílio e Anco Márcio,
parecem ser totalmente lendários,
e acredita-se que tanto seus nomes quanto
seus feitos foram imaginados e narrados
muitos séculos após a
fundação da cidade. Os
três últimos soberanos
foram os etruscos Tarqüínio
o Velho, Sérvio Túlio
e Tarqüínio o Soberbo, de
existência mais documentada, cujos
governos se estenderam pela maior parte
do século VI.
A monarquia etrusca coincidiu com uma
época de notável progresso
econômico e cultural: os romanos,
povo de mentalidade prática,
adotaram o alfabeto grego e o modificaram
até criar o alfabeto latino,
que seria posteriormente utilizado por
quase todos os idiomas do mundo. Tanto
os etruscos do norte quanto os gregos
do sul tiveram influência significativa
na formação da cultura
especificamente latina. Roma, que não
passava de um aglomerado de aldeias,
converteu-se numa verdadeira cidade,
na qual os reis etruscos executaram
grandes obras públicas: saneamento,
construções de templos
e de locais públicos de reunião.
É provável que a expulsão
dos etruscos tenha, na verdade, ocorrido
vários decênios depois
de 509 a.C., a data convencionalmente
fixada para sua ocorrência. O
último rei, Tarqüínio
o Soberbo, foi deposto pelos cidadãos
de Roma, que instauraram então
o regime republicano.
República.
Patrícios
e plebeus. Nos primeiros tempos da república,
só os membros das famílias
mais poderosas habilitavam-se a participar
do governo da cidade. Seu poder era
exercido pelo Senado, uma assembléia
integrada pelos chefes das principais
famílias, que exerciam o cargo
a título vitalício. As
tensões entre patrícios
e plebeus fizeram com que estes últimos
recorressem, por duas vezes, a movimentos
de secessão, mediante a retirada
para fora dos muros de Roma e a recusa
de cumprir obrigações
militares. Obrigado a aceitar suas condições,
o Senado acabou por autorizar a criação
de assembléias de plebeus. Essas
assembléias nomeavam os tribunos
da plebe, os quais gozavam de imunidade
e eram dotados de poderes para proteger
o povo das ações arbitrárias
dos magistrados.
Por volta de 450 a.C., o direito consuetudinário
romano foi codificado pelos decênviros
(magistrados especialmente designados
para essa missão) e promulgada
a Lei das Doze Tábuas, embrião
do vasto corpo jurídico que Roma
legou ao mundo e que haveria de constituir
a base dos sistemas jurídicos
modernos. A pressão dos plebeus
levou a novas concessões, até
que, ao obterem acesso à dignidade
sacerdotal, no ano 300 a.C., tornou-se
completa a igualdade jurídica
entre todos os cidadãos da república.
Expansão territorial. A Roma
monárquica havia integrado uma
federação de cidades latinas.
Quando caíram os reis etruscos,
as populações vizinhas
deram início a um movimento para
exigir maior autonomia, o que obrigou
Roma a intensificar suas ações
militares até reconstruir a antiga
Liga Latina, dessa vez sob seu predomínio.
Ao longo do século V, Roma dominou
diversos povos. A vizinha cidade etrusca
de Veios, principal rival de Roma, foi
destruída em 396 a.C., ao fim
de dez anos de guerra.
Invasão dos gauleses. No início
do século IV, povos celtas procedentes
da planície da Europa central
invadiram o norte da Itália e
venceram os etruscos. Prosseguindo seu
avanço pela península,
chocaram-se com as forças romanas
junto ao rio Ália e as derrotaram
em 390 a.C. Os celtas apoderaram-se
então de Roma e a incendiaram
ao abandoná-la, depois de reunir
um grande saque. Roma se recuperou rapidamente
e em poucos anos se transformou na maior
potência da Itália central,
ao mesmo tempo que as cidades etruscas
entravam em decadência, vítimas
dos constantes ataques gauleses, que
contribuíram para arruinar sua
civilização. Data dessa
época a muralha Serviana, que
protegia uma Roma de dimensões
já bastante consideráveis.
Conquista da Itália. A cidade
de Cápua, situada na Campânia,
a sudeste de Roma, solicitou sem êxito
a ajuda dos romanos para enfrentar os
samnitas, seus inimigos. A poderosa
comunidade samnita infiltrada em Roma
-- que se transformava numa metrópole
para a qual acorriam imigrantes das
mais diversas etnias -- conseguiu que
a cidade de Roma se voltasse contra
Cápua. Depois que esta foi derrotada,
os samnitas deram início a uma
série de guerras contra seus
vizinhos, o que acabou por lhe valer
o domínio da Itália. A
segunda guerra samnita, em que as forças
romanas foram vencidas, terminou em
321 a.C. com a chamada Paz Caudina,
uma alusão ao humilhante desfile
a que foram obrigados os romanos derrotados
pelo desfiladeiro samnita de Caudinae
Forculae. Entretanto, na terceira guerra
samnita, de 298 a 290 a.C., as forças
romanas conseguiram a esmagadora vitória
de Sentino, contra uma coligação
formada por seus principais inimigos.
Todo o centro da Itália caiu
então sob o poderio de Roma.
O expansionismo de Roma, já convertida
em grande potência, voltou-se
para as ricas cidades gregas do sul
da península. A poderosa Tarento
caiu em suas mãos em 271 a.C.
e logo toda a península itálica
tornou-se romana.
Roma
submetia as cidades dominadas a regimes
jurídicos diversos. Basicamente,
respeitou as instituições
governamentais de cada uma delas e executou
uma hábil política, concedendo,
em alguns casos, a cidadania romana
a seus habitantes, embora sem direitos
políticos na metrópole.
O resultado foi a conquista de um vasto
território em que a ordem jurídica
se encontrava uniformizada e garantida,
o que permitiu o incremento das relações
comerciais e a manutenção
de um poderoso exército. Logo
foram construídas as primeiras
grandes vias de comunicação
terrestre e estabelecido o domínio
marítimo da costa da península.
Cidadãos romanos estabeleceram
colônias, primeiro no Lácio
e depois no resto da península
itálica, o que contribuiu para
a integração do território.
Expansão mediterrânea.
Em meados do século III, Roma
-- senhora da península itálica
-- empreendeu a expansão que
a tornaria dona do Mediterrâneo.
Para isso, era inevitável o confronto
com um poderoso inimigo: Cartago. A
cidade norte-africana dominava um extenso
império comercial que incluía,
além das costas africanas, o
sul da península ibérica,
a Córsega, a Sardenha e a maior
parte da Sicília. Todas as três
ilhas caíram em poder dos romanos
após a primeira guerra púnica,
de 264 a 241 a.C. Mais tarde, Roma deu
início à colonização
do vale do Pó e se impôs
aos gauleses, os quais ali se estabeleceram
no século IV.
Também as costas orientais do
mar Adriático caíram sob
a influência romana em conseqüência
das campanhas empreendidas contra os
piratas que tinham suas bases no litoral
de Ilíria. Uma nova guerra com
Cartago -- a segunda guerra púnica
-- começou em 218 a.C. Quando
chegou ao fim, em 201 a.C., a cidade
africana havia deixado de ser uma potência
rival, e grande parte da península
ibérica caiu, com suas riquezas
minerais, em poder de Roma. A terceira
guerra púnica, de 149 a 146 a.C.,
terminou com a destruição
definitiva de Cartago e com a incorporação
a Roma dos restos de seu império.
Ao
mesmo tempo em que estabelecia seu domínio
sobre o Mediterrâneo ocidental,
Roma empreendeu a expansão pela
zona oriental. A intervenção
na Macedônia e Grécia teve
início na época da segunda
guerra púnica, mas a Macedônia
só se tornou província
romana em 148 a.C. Dois anos mais tarde,
a destruição de Corinto
punha fim às aspirações
de independência dos gregos. Em
133 a.C., Átalo III, rei de Pérgamo,
legou seu reino a Roma, com o que os
domínios da cidade chegaram pela
primeira vez à Ásia. Somente
no início do século I
a.C. Roma reiniciou sua expansão
pela Anatólia, Síria e
Judéia.
A partir do ano de 125 a.C., com os
ataques de címbrios e teutões
à recém-organizada província
Gália Narbonense, atual sul da
França, teve início a
ocupação romana com o
objetivo de estabelecer uma via de comunicação
terrestre entre a Itália e os
domínios ibéricos. Esses
povos, procedentes da Jutlândia,
desceram pela Europa central até
chocar-se com as legiões romanas,
que foram por elas derrotadas em Orange,
no ano 105 a.C. Ante a lembrança
da antiga invasão gaulesa, Roma
reuniu todas as suas forças e
o cônsul Caio Mário conseguiu
obrigar os invasores nórdicos
a retroceder, rechaçando os címbrios
e teutões da Gália no
período entre 105 a 101 a.C.
Evolução da sociedade
romana. Depois que Roma se tornou centro
de um grande território, os habitantes
da cidade, que nos primeiros tempos
da república constituíam
um povo sóbrio, guerreiro e trabalhador,
começaram a desfrutar as imensas
riquezas acumuladas. Desapareceu o serviço
militar como direito e dever do cidadão.
As legiões começaram então
a ser formadas com mercenários
procedentes de toda a Itália
e, mais tarde, de todas as regiões
dominadas, o que provocou uma grande
mistura de etnias e costumes. A Grécia
foi saqueada e seus tesouros artísticos
enviados a Roma. As classes altas, a
começar por algumas famílias
como a dos Cipiões, assimilaram
a cultura helênica, que foi protegida
e imitada. Os prisioneiros de guerra
constituíram um imenso exército
de escravos, cujo trabalho barato nas
grandes propriedades e nas manufaturas
arruinou os camponeses e os artesãos
livres da península itálica.
O sistema econômico, muito monetarizado,
permitiu notável acúmulo
de capital. Os grandes comerciantes
e banqueiros romanos pertenciam em geral
à classe dos cavaleiros (equites),
intermediária entre as grandes
famílias que dividiam as cadeiras
do Senado e as classes baixas. O proletariado
romano transformou-se numa classe ociosa
que vivia miseravelmente das subvenções
e distribuições de alimentos,
freqüentava as termas e era entretida
com jogos públicos e circo. A
própria Roma tornou-se uma grande
cidade parasita, que importava grande
quantidade de mercadorias de luxo e
especiarias orientais, trigo da Sicília
e do norte da África, azeite
da Espanha e escravos de todo o imenso
território colonial. O velho
sistema político republicano,
edificado por e para uma cidadania identificada
com sua cidade, era cada vez menos capaz
de funcionar numa sociedade enriquecida
que perdera seus ideais. Teve início
assim um longo período de instabilidade
interna que só cessou quando
a velha república romana se transformou
em império.
Ditaduras
e guerras civis. As últimas décadas
do século II registraram lutas
sociais que tiveram como protagonistas
os irmãos Tibério e Caio
Graco, eleitos tribunos da plebe. Já
não se tratava, como no início
da república, da reivindicação
de igualdade de direitos por parte dos
plebeus, mas do protesto do povo, reduzido
à miséria, contra os ricos
e, muito especialmente, contra a nobreza
senatorial, proprietária da maior
parte das terras da Itália.
Mais tarde, generais vitoriosos como
Mário, vencedor dos címbrios
e teutões, e Sila, pacificador
da Itália, aproveitaram o poderio
de seus exércitos e sua popularidade
entre o povo para tentar apoderar-se
do estado romano. O Senado, temeroso
de sua influência, interveio mais
ou menos abertamente contra eles. As
classes altas tentavam consolidar as
instituições republicanas,
enquanto o povo desejava, com determinação
cada vez maior, um governante único.
Por outro lado, as possessões
orientais, cuja influência no
mundo romano era considerável,
careciam de tradição republicana
e seus habitantes consideravam natural
o fato de serem governados por autocratas
divinizados.
A guerra social eclodiu na Itália
quando os habitantes da península
exigiram a cidadania romana para terem
acesso à distribuição
das terras públicas. Em 91 a.C.,
estendeu-se pela península uma
verdadeira guerra civil que só
terminou quando, ao fim de três
anos, foi concedida a cidadania romana
a todos os italianos.
No ano 88 a.C. rebentou na Anatólia
uma rebelião contra o poder de
Roma. O Senado confiou o comando do
exército, encarregado de reprimi-la,
a Lúcio Cornélio Sila,
mas a plebe romana o destituiu e colocou
Mário em seu lugar, o vencedor
dos invasores bárbaros, que simpatizava
com o partido popular.
À frente das tropas expedicionárias,
Sila tomou Roma, desterrou Mário
e restabeleceu o poder senatorial. Quando
Sila retomou o caminho da Ásia,
os partidários de Mário
aproveitaram-se de seu afastamento para
se apoderar mais uma vez da capital.
Após restabelecer a autoridade
de Roma no Oriente, Sila voltou à
metrópole. Os partidários
de Mário foram derrotados em
82 a.C. e se estabeleceu em Roma um
regime ditatorial. No poder, Sila fortaleceu
a posição das classes
altas e limitou as atribuições
dos tribunos da plebe, que foram privados
do direito de veto, de convocação
do Senado e de apresentação
de projetos de lei à assembléia
sem autorização senatorial.
Sila deixou voluntariamente o poder
em 79 a.C., pouco antes de sua morte.
Em 73 a.C. eclodiu uma rebelião
de escravos liderados pelo gladiador
Espártaco. Durante dois anos,
um grande contingente de escravos rebeldes
colocou em perigo as próprias
bases da república romana, até
que foram exterminados pelo exército,
sob o comando de Pompeu. O mesmo cônsul
conseguiu a vitória na luta contra
os piratas e nas guerras do Oriente,
o que lhe permitiu voltar triunfalmente
a Roma. O Senado, temeroso de seu prestígio,
desautorizou seu trabalho legislativo
no Oriente e sua promessa de distribuir
terras aos veteranos da guerra. Em represália,
Pompeu se aliou a dois outros líderes
poderosos, Júlio César
e Marco Licínio Crasso, para
enfrentar a nobreza senatorial.
O primeiro triunvirato, estabelecido
em 60 a.C., manteve o equilíbrio
de poder durante vários anos,
ao longo dos quais César promoveu
a conquista das Gálias e expedições
além do Reno e do canal da Mancha.
O Senado procurou o apoio de Pompeu,
em 52 a.C., para destruir o crescente
poder de César. Eclodiu então
uma guerra civil e os partidários
de Pompeu foram derrotados em todas
as regiões do mundo romano. César
fez-se nomear ditador perpétuo
e assumiu plenos poderes. Em pouco tempo,
modificou a legislação
romana, o censo de cidadãos e
o calendário. A 15 de março
de 44 a.C., foi assassinado por um grupo
de senadores.
O Senado tentou recuperar seu antigo
poder, mas a revolta do povo romano
após os funerais do ditador desencadeou
novo período de lutas civis e
repressão. Em 43 a.C., constituiu-se
um segundo triunvirato, integrado por
Marco Antônio, Marco Emílio
Lépido e Caio Otávio (chamado
depois Augusto), que o Senado foi obrigado
a reconhecer. Os triúnviros dividiram
os domínios de Roma, mas nem
por isso cessaram as lutas internas.
Lépido foi neutralizado, Otávio
ocupou habilmente o poder no Ocidente
e Marco Antônio, impopular em
Roma devido a seu comportamento de déspota
oriental, foi derrotado em Actium (Áccio)
em 31 a.C. Com sua morte, Otávio
tornou-se o único senhor de Roma.
A queda de Alexandria e o suicídio
da rainha Cleópatra -- aliada
de Marco Antônio -- deixaram o
Egito em mãos de Otávio,
que o incorporou a Roma como patrimônio
pessoal.
Império.
Otávio Augusto. Depois de um
século de lutas civis, o mundo
romano estava desejoso de paz. Otávio
se encontrou na situação
daquele que detém o poder absoluto
num imenso império com suas províncias
pacificadas e em cuja capital a aristocracia
se encontrava exausta e debilitada.
O Senado não estava em condições
de opor-se aos desejos do general, detentor
do poder militar. A habilidade de Augusto
-- nome adotado por Otávio em
27 a.C. -- consistiu em conciliar a
tradição republicana de
Roma com a de monarquia divinizada dos
povos orientais do império. Conhecedor
do ódio ancestral dos romanos
à instituição monárquica,
assumiu o título de imperador,
por meio do qual adquiriu o imperium,
poder moral que em Roma se atribuía
não ao rei, mas ao general vitorioso.
Sob a aparência de um retorno
ao passado, Augusto orientou as instituições
do estado romano em sentido oposto ao
republicano. A burocracia se multiplicou,
de forma que os senadores se tornaram
insuficientes para garantir o desempenho
de todos os cargos de responsabilidade.
Isso facilitou o ingresso da classe
dos cavaleiros na alta administração
do império. Os novos administradores
deviam tudo ao imperador e contribuíam
para fortalecer seu poder. Pouco a pouco,
o Senado -- até então
domínio exclusivo das antigas
grandes famílias romanas -- passou
a admitir italianos e, mais tarde, representantes
de todas as províncias. A cidadania
romana ampliou-se lentamente e somente
em 212 da era cristã o imperador
Marco Aurélio Antonino, dito
Caracala, reconheceu todos os súditos
do império.
O longo período durante o qual
Augusto foi senhor dos destinos de Roma,
entre 27 a.C. e 14 da era cristã,
caracterizou-se pela paz interna (pax
romana), pela consolidação
das instituições imperiais
e pelo desenvolvimento econômico.
As fronteiras européias foram
fixadas no Reno e no Danúbio,
completou-se a dominação
das regiões montanhosas dos Alpes
e da península ibérica
e empreendeu-se a conquista da Mauritânia.
O maior problema, porém, que
permaneceu sem solução
definitiva, foi o da sucessão
no poder. Nunca existiu uma ordem sucessória
bem definida, nem dinástica nem
eletiva. Depois de Augusto, revezaram-se
no poder diversos membros de sua família.
A história salientou as misérias
pessoais e a instabilidade da maior
parte dos imperadores da dinastia Júlio-Cláudia,
como Caio Júlio César
Germânico, dito Calígula,
imperador de 37 a 41, e Nero Cláudio
César, de 54 a 68. É provável
que tenha havido exagero, pois as fontes
históricas que chegaram aos tempos
modernos são de autores que se
opuseram frontalmente a tais imperadores.
Mas se a corrupção e a
desordem reinavam nos palácios
romanos, o império, solidamente
organizado, parecia em nada ressentir-se.
O sistema econômico funcionava
com eficácia, registrava-se uma
paz relativa em quase todas as províncias
e além das fronteiras não
existiam inimigos capazes de enfrentar
o poderio de Roma. Na Europa, Ásia
e África, as cidades, bases administrativas
do império, cresciam e se tornavam
cada vez mais cultas e prósperas.
As diferenças culturais e sociais
entre as cidades e as zonas rurais que
as cercavam eram enormes, mas nunca
houve uma tentativa de diminuí-las.
Ao primitivo panteão romano juntaram-se
centenas de deuses e, na religião
como no vestuário e em outras
manifestações culturais,
difundiram-se modismos egípcios
e sírios. A partir de suas origens
obscuras na Judéia, o cristianismo
foi-se aos poucos propagando por todo
o império, principalmente entre
as classes baixas dos núcleos
urbanos. Em alguns momentos, o rígido
monoteísmo de judeus e cristãos
se chocou com as conveniências
políticas, ao opor-se à
divinização, mais ritual
que efetiva, do imperador. Registraram-se
então perseguições,
apesar da ampla tolerância religiosa
de uma sociedade que não acreditava
verdadeiramente em nada. O Império
Romano só começou a ser
rígido e intolerante em matéria
religiosa depois que adotou o cristianismo
como religião oficial, já
no século IV.
O século II, conhecido como o
século dos Antoninos, foi considerado
pela historiografia tradicional como
aquele em que o Império Romano
chegou a seu apogeu. De fato, a população,
o comércio e o poder do império
se encontravam em seu ponto máximo,
mas começavam a perceber-se sinais
de que o sistema estava à beira
do esgotamento. A última grande
conquista territorial foi a Dácia
e na época de Trajano (98-117)
teve início um breve domínio
sobre a Mesopotâmia e a Armênia.
Depois dessa época, o império
não teve mais forças para
anexar novos territórios.
Decadência do império.
Uma questão que os historiadores
nunca conseguiram esclarecer de todo
foi a da causa da decadência de
Roma. Apesar da paz interna e da criação
de um grande mercado comercial, a partir
do século II não se registrou
nenhum desenvolvimento econômico
e provavelmente também nenhum
crescimento populacional. A Itália
continuava a registrar uma queda em
sua densidade demográfica, com
a emigração de seus habitantes
para Roma ou para as longínquas
províncias do Oriente e do Ocidente.
A agricultura e a indústria se
tornavam mais prósperas quanto
mais se afastavam da capital.
No fim do século II, começou
a registrar-se a decadência. Havia
um número cada vez menor de homens
para integrar os exércitos, a
ausência de guerras de conquista
deixou desprovido o mercado de escravos
e o sistema econômico, baseado
no trabalho da mão-de-obra escrava,
começou a experimentar crises
em conseqüência de sua falta,
já que os agricultores e artesãos
livres haviam quase desaparecido da
região ocidental do império.
Nas fronteiras, os povos bárbaros
exerciam uma pressão crescente,
na tentativa de penetrar nos territórios
do império. Mas se terminaram
por consegui-lo, isso não se
deveu a sua força e sim à
extrema debilidade de Roma.
As cidades também começaram
a entrar em decadência e os ricos
burgueses que habitavam os centros urbanos
se viram às voltas com obrigações
e impostos cada vez mais altos. Em conseqüência,
os proprietários rurais voltaram
para suas propriedades, onde se encontravam
mais protegidos do assédio do
fisco imperial. O esvaziamento dos centros
urbanos, muito intenso na região
ocidental, deixou o império sem
sua base social. Voltou-se à
autarquia de cada território
e o comércio decaiu. A navegação
tornou-se mais difícil. O poder
do estado enfraqueceu e, em compensação,
os grandes proprietários rurais
começaram a organizar pequenos
exércitos privados e a administrar
a justiça em seus domínios.
O século III viu acentuar-se
o aspecto militar dos imperadores, que
acabou por eclipsar todos os demais.
Registraram-se diversos períodos
de anarquia militar, no transcurso dos
quais vários imperadores lutaram
entre si devido à divisão
do poder e dos territórios. As
fronteiras orientais, com a Pérsia,
e as do norte, com os povos germânicos,
tinham sua segurança ameaçada.
Bretanha, Dácia e parte da Germânia
foram abandonadas ante a impossibilidade
das autoridades romanas de garantir
sua defesa. Cresceu o banditismo no
interior, enquanto as cidades, empobrecidas,
começavam a fortificar-se, devido
à necessidade de defender-se
de uma zona rural que já não
lhes pertencia. O intercâmbio
de mercadorias decaiu e as rotas terrestres
e marítimas ficaram abandonadas.
Um acelerado declínio da população
ocorreu a partir do ano 252, em conseqüência
da peste que grassou em Roma.
Os imperadores Aureliano, regente de
270 a 275, e Diocleciano, de 284 a 305,
conseguiram apenas conter a crise. Com
grande energia, o último tentou
reorganizar o império, dividindo-o
em duas partes, cada uma das quais foi
governada por um augusto, que associou
seu governo a um césar, destinado
a ser o seu sucessor. Mas o sistema
da tetrarquia não deu resultados.
Com a abdicação de Diocleciano,
teve início uma nova guerra civil.
Constantino I favoreceu o cristianismo,
que gradativamente passou a ser adotado
como religião oficial. A esclerose
do mundo romano era tal que a antiga
divisão administrativa se transformou
em divisão política a
partir de Teodósio I, imperador
de 379 a 395, o último a exercer
sua autoridade sobre todo o império.
Este adotou a ortodoxia católica
como religião oficial, obrigatória
para todos os súditos, pelo edito
de 380.
Teodósio I conseguiu preservar
a integridade imperial tanto ante a
ameaça dos bárbaros quanto
contra as usurpações.
No entanto, sancionou a futura separação
entre o Oriente e o Ocidente do império
ao entregar o governo de Roma a seu
filho Honório, e o de Constantinopla,
no Oriente, ao primogênito, Arcádio.
A parte oriental conservou uma maior
vitalidade demográfica e econômica,
enquanto que o império ocidental,
no qual diversos povos bárbaros
efetuavam incursões, umas vezes
como atacantes outras como aliados,
se decompôs com rapidez.
O rei godo Alarico saqueou Roma no ano
410. As forças imperiais, somadas
às dos aliados bárbaros,
conseguiram entretanto uma última
vitória ao derrotar Átila
nos Campos Catalaúnicos, em 451.
O último imperador do Ocidente
foi Rômulo Augústulo, deposto
por Odoacro no ano 476, data que mais
tarde viria a ser vista como a do fim
da antiguidade. O império oriental
prolongou sua existência, com
diversas vicissitudes, durante um milênio,
até a conquista de Constantinopla
pelos turcos, em 1453.
Legado de Roma. A civilização
romana foi original e criadora em vários
campos: o direito romano, codificado
no século VI, ao tempo do imperador
Justiniano, constituiu um corpo jurídico
sem igual nos tempos antigos e forneceu
as bases do direito da Europa medieval,
além de ter conservado sua vigência,
em muitas legislações,
até os tempos modernos. As estradas
romanas, perfeitamente pavimentadas,
uniam todas as províncias do
império e continuaram a facilitar
os deslocamentos por terra dos povos
que se radicaram nas antigas terras
imperiais ao longo dos séculos,
apesar de seu estado de abandono. Conservaram-se
delas grandes trechos e seu traçado
foi seguido, em linhas gerais, por muitas
das grandes vias modernas de comunicação.
As obras públicas, tais como
pontes, represas e aquedutos ainda causam
impressão pelo domínio
da técnica e o poderio que revelam.
Muitas cidades européias mostram
ainda em seu conjunto urbano os vestígios
das colônias romanas que foram
no passado.
Se, em linhas gerais, a arte romana
não foi original, Roma teve o
mérito de haver sabido transmitir
à posteridade os feitos dos artistas
gregos. Os poucos vestígios que
sobreviveram da pintura romana mostram
que as tradições gregas
continuavam vivas. Os temas indicam
a crescente preocupação
religiosa, a serviço dos imperadores
divinizados; referem-se, principalmente,
à imortalidade da alma e à
vida de além-túmulo. O
cristianismo se valeu do Império
Romano para sua expansão e organização
e depois de vinte séculos de
existência são evidentes
as marcas por ele deixadas no mundo
romano.
O latim, idioma que a expansão
romana tornou universal, está
na origem das atuais línguas
românicas, tais como o espanhol,
o italiano, o português, o francês,
o catalão e o romeno. Depois
de quase dois mil anos, pode-se ainda
falar de um mundo latino de características
bem diferenciadas.
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