H.F.
tinha uma voz muito arranhada, grave
e baixa.
Dizia ter muita vontade de cantar, mas
se sentia inapto e envergonhado.
Começamos um trabalho aparentemente
infrutífero, mas num determinado
dia, H.F. começou a cantar em
italiano e depois em francês,
línguas que não conhecia.
À medida que cantava se sentia
mais e mais intrigado (as sessões
são conscientes), mas também
mais contente. Acabou por explodir numa
longa e sonora gargalhada.
Quando
conversamos, ao final, contou ter se
experimentado como um bobo numa corte
da antigüidade, absolutamente livre
das opiniões alheias e feliz.
Ao contrário do que ele imaginava
antes das sessões, nada de traumático
havia acontecido, pelo menos não
que ele houvesse revivido.
Notei
que já naquele momento sua voz
havia mudado um pouco e soube que continuou
se transformando rapidamente nos dias
que se seguiam.
A última notícia que tive
foi a de que H.F. não havia conseguido
se profissionalizar, mas que cantava
no coral da universidade de sua cidade
e estava feliz com isso.
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