Estou
caminhando na grama, ao anoitecer, indo
escondida para a minha antiga casa.
Quero apenas pegar uma coisa, não
posso me arriscar a ser vista.
Ao sair andando pelo jardim, vejo minha
filha, que tem dois anos. Está
tão linda, de vestidinho rodado.
Sinto muita saudade dela e fico muito
triste.
Corro para ela e digo que a amo muito.
Ela diz que eu não gosto mais
dela, que não estou mais com
ela. Choro, imaginando quem tinha dito
isso a ela e tento dizer que isso não
é verdade.
Quero saber o que eu posso fazer para
ter minha filha de volta. A única
coisa em que consigo pensar é
agarrá-la em meus braços
e fugir, mas isso de nada adiantaria.
Tento
encontrar uma alternativa, mas é
inútil. Ele é rico, é
poderoso. Pode se defender e derrotar
qualquer coisa que eu tente fazer.
Ele aparece e eu tento implorar que
ele me deixe ficar com a menina, mas
ele se recusa até mesmo a me
deixar vê-la. Fico de joelhos,
pedindo e suplicando, mas ele nem sequer
olha para mim.
Volto à discussão, quando
senti muita raiva. Vejo-me gritando
com ele, ameaçando-o (de quê
não sei), meu peito ardendo de
raiva pura.
Ao meu redor, sinto sem ver pessoas
silenciosamente observando a discussão,
em surpresa muda. Ele não responde
aos meus gritos. Recusa-se a se intimidar
comigo.
Tento descobrir por que ele me tirou
a menina. Não sinto que tenta
feito alguma coisa errada, mas sinto
que ele me odeia por algum motivo, por
isso me tirou a garota. Mas não
sei que motivo é esse.
Sei
que ele me tirou muita coisa, e dele
só sinto raiva. Não só
por ter me tirado, mas por ter me negado
uma reação. Ele tinha
me riscado de sua vida, ignorava até
minha existência. E eu não
sabia o motivo.
No jardim, ainda estou ajoelhada diante
dele e ele me nega o direito de ver
minha filha.
Choro muito, mas ele não recua.
Vejo minhas roupas mudarem: estou com
um vestido longo de causa, verde-escuro,
drapeado, sem armação
de madeira na saia de muitas camadas.
O vestido rodado de minha filha é
todo decorado com bordados, e meu marido
(ex.?) usa um terno elegante com camisa
de gola alta e laço de gravata.
Choro muito, agora de puro desespero:
não há coisa alguma que
eu possa fazer para ter minha filha
de volta. Triste e derrotada, saio daquele
lugar.
Nem me incomodo de levar a tal coisa,
que eu nem sei direito o que é.
Só sei que aquilo é importante
para ele, tem alguma coisa a ver com
o dinheiro.
Mas agora me sinto tola ao tentar tirar
aquilo dele. Não quero aquela
coisa. Só queria tentar tirar
dele algo que fosse importante para
ele, mas desisto da idéia. Não
iria me trazer satisfação
alguma.
Deixo aquele lugar, mas não vou
muito longe. Fico no outro lado da rua,
perto do portão da casa,
tentando ver minha filha, sentada numa
soleira de porta. É um portão
de ferro alto, onde fico de guarda esperando
uma oportunidade dever minha garotinha.
Minhas roupas se rasgam, fico suja.
Então finalmente eu noto as pessoas
na rua.
Elas me olham, sabem quem eu sou. Estão
com raiva de mim. Fico com medo. Começam
a jogar coisas em mim: paus, pedras,
tudo que podem. Tento me proteger, mas
estão me machucando. Finalmente,
eu morro.
Meu corpo está logo ao meu lado.
Preciso sair dali, mas não posso.
Não posso deixar minha filha.
Não sei se eu quero me despedir
dela. Acho que não.
Podia assustá-la se ela visse
um fantasma. Vou embora dali, triste
e vazia sem minha garotinha.
mensageirosdoceu.net
- 2004 - 2009 - Todos os Direitos Reservados.