Procurou
a terapia porque sentia uma certa apatia
e dificuldade de concentração no seu
trabalho.
Seu apelido em seu trabalho era “garoto
propaganda”, porque vivia “sorrindo”
e nunca demonstrava tristeza ou mesmo
raiva.
Na entrevista de avaliação que costumo
agendar com os pacientes antes de iniciar
o trabalho de regressão, compreendi
o porquê de seus colegas de trabalho
o apelidarem de “garoto propaganda”.
Mesmo relatando acontecimentos dolorosos
de sua infância, ele continuava “sorrindo”
como se tivesse colocado em seu rosto
uma “máscara sorridente”.
Essa máscara me fez lembrar o Coringa
(personagem vilão que vive rindo no
filme americano “Batman”, o homem morcego).
Pude constatar após a regressão que
esse “sorriso” constante não era um
sorriso genuíno, verdadeiro. Na verdade,
ele sofria de Depressão Mascarada. Essa
aparente “alegria” estampada em seu
rosto, era um disfarce, uma máscara
para ocultar uma tristeza profunda.
Evidentemente, antes dele passar pela
regressão, não tinha consciência que
era uma pessoa depressiva. E que sua
apatia e a falta de concentração faziam
parte de seu quadro depressivo.
Na regressão, se viu quando tinha 5
anos de idade, brigando com o seu irmão
de 3 anos. Ele pedia insistentemente
ao seu irmão para que devolvesse seu
brinquedo preferido, mas este não o
atendeu.
Num acesso de ira, o paciente pegou
o brinquedo da mão dele e o agrediu
dando na sua cabeça. A mãe, ao presenciar
o ato, o pegou pelo braço bruscamente
e lhe disse: “Não pode sentir raiva
de seu irmão.
Vai lá e o abrace e ponha um sorriso
no seu rosto!!! Vamos!!!” E foi o que
ele fez. Deu-lhe um abraço “fraterno”,
“sincero”, “carinhoso” e um sorriso
“radiante”. Perguntei-lhe o que estava
sentindo.
Ele me respondeu secamente: “Nada”.
A essa altura, seu corpo, rosto e mandíbulas
estavam todos contraídos. Seus punhos
estavam completamente cerrados. Repeti
novamente a pergunta e recebi a mesma
resposta.
Então, pedi para que ele repetisse várias
vezes a palavra “raiva”. No início ele
o repetia bem baixo, quase inaudível.
Então, eu disse: “Fale mais alto!!!
Não estou escutando”. E cada vez que
ele repetia a palavra, eu dizia que
não estava escutando direito.
Até que não agüentando mais, gritou
chorando convulsivamente que estava
com muita raiva de sua mãe pelo fato
dela sempre o obrigar a abraçar o seu
irmão quando os dois brigavam.
Esperei que ele parasse de chorar e
lhe disse carinhosamente: “É natural
sentir raiva de sua mãe pelo fato dela
lhe obrigar a sorrir e abraçar o seu
irmão, quando na verdade estava sentindo
muita raiva dele.
Com isso, ela estava lhe ensinando a
sentir uma falsa alegria (sorriso) e
um falso afeto (abraço). Portanto, você
não podia sentir e nem tampouco expressar
raiva”. Ao pedir para que ele prosseguisse
na cena, percebeu também que não podia
sentir tristeza.
Quando
seu cachorro faleceu, sentiu uma profunda
tristeza. Sua mãe lhe disse: “Pare de
chorar!! Que coisa feia!! Eu compro
outro cachorro. Vamos, bote um sorriso
em seu rosto e enxugue essas lágrimas!!”
Dentro do processo educacional, muitos
pais não ensinam seus filhos a diferenciar
o ato de sentir e agir, ou seja, que
existe uma diferença entre sentimento
e ação.
No caso desse paciente, sua mãe, ao
invés de obrigá-lo a dar um abraço no
seu irmão, poderia lhe ter dito: “Eu
vejo que você está com raiva de seu
irmão porque ele pegou o seu brinquedo
preferido, mas você não precisava agredi-lo,
machucando-o”. Com essa colocação, sua
mãe lhe ensinaria a diferença entre
sentimento e ação, permitindo um, mas
não o outro.
Ele iria aprender que não é errado sentir
raiva, mas que agredir, machucando alguém,
não é correto, pois existem outras formas
de conseguir o que quer e de expressar
seus verdadeiros sentimentos. Portanto,
dentro desse processo educacional opressivo,
aprendemos que existem categorias de
aspectos ou emoções considerados como
“perigosos”, tais como: sexo, ciúme,
inveja, medo, tristeza.
Aprendemos que é “feio” sentir tesão
sexual, inveja, ciúme e raiva dos outros.
E, com essas proibições, acabamos suprimindo,
recalcando essas emoções autênticas,
inerentes ao seres humanos.
Expliquei ao paciente que a raiva, quando
bem administrada, é altamente saudável.
Por outro lado, quando ela fica “parada”
no estômago, por exemplo, gera as chamadas
doenças psicossomáticas, tais como:
úlcera, gastrite ou mesmo câncer.
Neste mundo globalizado e competitivo,
se você não usar a energia da agressividade,
coragem, ousadia em seu trabalho e em
sua vida, não sobrevive. Muitas vezes,
a falta de interesse, de vontade, de
motivação, são sintomas "master" da
insegurança.
São pessoas medrosas, inseguras que
aprenderam a recalcar a energia da agressividade.
Tornam-se pessoas passivas, sem nenhuma
iniciativa, chegando a sentir apatia
e desinteresse pela vida. Era o caso
desse paciente.
Após 8 sessões de regressão, pude constatar
significativas mudanças em seu comportamento.
Percebi que ele estava mais solto, espontâneo,
mais verdadeiro, mais firme nas suas
atitudes, dizia a palavra “não” quando
não estava a fim de fazer algo, sem
culpa ou arrependimento.
Antes, cultivava sentimento de culpa
ao contrariar alguém e acabava pedindo
desculpas, mesmo estando certo. Aprendeu
a sentir e expressar raiva e tristeza
sem utilizar os seus disfarces antigos
de falsa alegria e falso afeto, demonstrando-as
verdadeiramente e a apatia e falta de
concentração foram substituídas por
entusiasmo e verdadeira alegria. Aquela
“máscara sorridente” em seu rosto, desaparecera.
Osvaldo
Shimoda é terapeuta e trabalha com técnicas
de hipnose e terapia de Vidas Passadas
em seu consultório em São Paulo.
Email: shimoda@vidanova.com
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